E chegamos a mais uma Resenha de Quinta! Confesso que comecei a assistir a esse filme há muitos e muitos anos. Por algum motivo que não me lembro — talvez minha memória tentando me proteger de algo —, parei no meio e criei uma resistência enorme. Não queria assistir de jeito nenhum. Até que ele começou a aparecer para mim com uma frequência insistente, e eu resolvi assistir de novo, do início.
O filme é Um Dia (One Day, 2011), estrelado por Anne Hathaway (como Emma Morley) e Jim Sturgess (como Dexter Mayhew). Vou tentar trazer essa resenha sem dar muitos spoilers — farei o meu melhor, embora não garanta conseguir! O filme fala sobre amor, como quase tudo o que trago por aqui. Mas toca em uma ideia de amor muito visceral, porque o aproxima imensamente da dor. Costumo falar muito sobre a ideia do “apesar de” — do amor que existe acolhendo o que o outro oferece em toda a sua totalidade. E esse filme escancara isso.
A trama conta a história de dois amigos improváveis, completamente diferentes, que constroem uma relação ao longo de duas décadas acompanhando o que acontece na vida dos dois exatamente no mesmo dia do ano. Conforme o tempo passa, a transformação dos personagens é perceptível. Enquanto vemos a Emma se tornando cada vez mais imponente, dona de si e convicta dos seus desejos e limites, o Dexter vai enfrentando transformações dolorosas: lutos, perdas e o confronto inevitável com a imaturidade.
E o amor entre eles permanece ali, atravessando o tempo. Até que chega um momento em que ela se cansa e entrega a melhor frase do filme, quando diz a ele: “Eu te amo, Dexter. Amo muito. Só não gosto mais de você.” Esse “não gosto mais de você” é a síntese do “apesar de”. É quando você percebe que aquela pessoa ainda desperta amor em você, mas você não a quer por perto naquele momento. O “gostar” tem a ver com o contrato do presente, com a dinâmica da relação, com o papel exercido e com as cláusulas do momento. Quando digo que “não gosto” de como alguém está agindo, significa que o contrato, daquela maneira, não funciona mais para mim. E reconhecer isso não invalida o fato de eu estar enxergando e aceitando o outro exatamente como ele é.
A ideia de contrato nos relacionamentos — seja um contrato conjugal ou afetivo — está relacionada justamente a isso: a compreender que existem cláusulas que precisam mudar ao longo da vida, porque nós mudamos e as nossas necessidades também mudam. Esse filme deixa claro, de uma maneira quase dolorosa, que o amor verdadeiro constrói um lugar que não te aprisiona, mas que te dá a possibilidade de experimentar outras posições. A Emma faz exatamente isso. Ela experimenta estar em várias posições nessa relação, continua amando esse homem e amigo, mas compreende que aquele vínculo exige reajustes. O amor não te obriga a se manter estático no mesmo lugar.
Outro ponto fascinante é o processo de amadurecimento dos dois personagens. À primeira vista, para quem olha distraído, pode parecer que só o Dexter está “se dando mal” por conta de suas escolhas e comportamentos visivelmente nocivos. Mas a Emma também entra em contato com a sua própria toxicidade, só que de outro modo: no quanto ela se diminui para caber, no quanto escolhe relacionamentos mornos e sem amor e adia se jogar nos seus verdadeiros sonhos para não encarar a própria vulnerabilidade. Há um sofrimento profundo dos dois lados, mas também é bonito perceber o crescimento de ambos nesses movimentos.
Ambos passam por um processo doloroso até que chega o momento de um despertar — e eu não vou entregar esse despertar aqui, senão vocês vão brigar comigo quando forem assistir ao filme!
O despertar dos dois personagens evidencia justamente a potência do amor. Não porque eles finalmente se tornam perfeitos — muito pelo contrário. Eles continuam carregando suas feridas, suas limitações e seus modos, por vezes desajeitados, de existir. O que muda é a forma como passam a olhar para si mesmos e um para o outro. Eles deixam de tentar encaixar o outro em um ideal e começam, finalmente, a perguntar: com quem essa pessoa é hoje, o que ainda podemos construir?
Talvez seja justamente esse o verdadeiro significado do “apesar de”. Aceitar o outro em sua totalidade nunca significou permanecer em relações que nos violentam. Violência não é prova de amor. A violência rompe exatamente aquilo que o amor tem de mais genuíno: a possibilidade de reconhecer o outro como um outro legítimo, sem que isso exija o apagamento de quem somos.
É justamente por isso que os momentos finais desse filme doem tanto. Porque eles nos obrigam a abandonar a fantasia de que os relacionamentos seguem linhas retas. Eles não seguem. Todo vínculo — seja amoroso, de amizade ou familiar — exige que revisitemos constantemente quem nos tornamos e quem o outro também se tornou. Exige que renegociemos contratos, lugares e expectativas. Exige que descubramos, repetidas vezes, se ainda conseguimos caminhar juntos… e de que maneira.
E talvez seja justamente por isso que o filme se chama Um Dia. Mas aqui é Resenha de Quinta, então essa é apenas a minha hipótese. Talvez porque os vínculos nunca sejam construídos de uma vez por todas. Eles acontecem um dia de cada vez. Um encontro de cada vez. Uma escolha de cada vez. Apesar das diferenças. Apesar das feridas. Apesar das mudanças. Apesar de.
Bom… acho que já trouxe todos os elementos que podia para tentar convencer você a assistir a esse filme que já tem mais de quinze anos. Sim, ele fala sobre amor. Mas não espere um amor “mamão com açúcar”. Espere um amor muito mais difícil — e, talvez por isso mesmo, muito mais verdadeiro. O amor de Maturana.
Uma resposta
Nunca assisti o filme Um Dia, mas fiquei muito interessada depois dessa review, porque é exatamente o tipo de abordagem que eu mais gosto nos filmes de romance. Amo as coisas que você traz sobre o amor, principalmente por não falar apenas pela perspectiva romântica (mesmo eu adorando essa também). Sempre gostei dessa temática e acho que tenho bastante a aprender contigo. É uma das muitas razões pelas quais te admiro tanto. De certa forma, estou percebendo ainda mais o poder do amor durante a graduação, e olha que estou bem no comecinho. Adorei muuuuito esse texto e estou sempre olhando as suas sugestões para assistir, haha. <3