Chegamos a mais uma segunda-feira. E mais uma vez tenho a sensação de que ultrapassei os limites da sanidade rsrs
Depois de um dia longo, entrei em casa e fiquei parada na porta. Não porque tivesse esquecido a chave. Nem porque algo tivesse acontecido. Eu simplesmente fiquei olhando para o meu capacho. Sim. O capacho. Esse tapetinho que fica na entrada da casa e que a maioria de nós pisa sem sequer perceber que ele está ali. Enquanto eu olhava para ele, uma frase começou a me incomodar.
“Você não pode ser capacho de ninguém.”
Curioso como transformamos esse objeto em sinônimo de humilhação. Como se sua única função fosse receber sujeira. Mas, olhando para ele ali, na soleira da minha casa, tive a impressão de que estávamos sendo injustos com o pobre do capacho.
Porque ele não mora exatamente dentro da casa. Também não mora na rua. Ele vive nesse lugar curioso entre uma coisa e outra. NA FRONTEIRA. E talvez seja justamente por isso que ele tenha começado a me interessar.
Pare para pensar comigo.
Quando escolhemos um capacho, dificilmente levamos o primeiro que encontramos. Escolhemos uma cor, uma textura, uma frase, um desenho. Sem perceber, deixamos ali uma pequena pista sobre quem somos antes mesmo de abrir a porta.
É quase como se disséssemos: “É assim que esta casa recebe.”
E então acontece um gesto tão cotidiano que quase desaparece. A gente não simplesmente pisa no capacho. A gente esfrega os pés. Arrasta um pouco o sapato. Desacelera por um instante. É um pequeno ritual de passagem. Sempre achei que esse movimento fosse sobre deixar a sujeira do lado de fora. Mas, olhando melhor, comecei a suspeitar que talvez ele seja também um jeito de preparar a entrada.
Porque limpar os pés não parece um gesto de rejeição. Parece um gesto de cuidado. A poeira não é expulsa porque é indesejada. Ela apenas NÃO PRECISA morar dentro da casa. E foi aí que o meu delírio mudou de direção.
Talvez exista um capacho dentro de cada um de nós. Não aquele do senso comum, que se anula para caber na vida dos outros. Mas essa parte silenciosa que habita a fronteira entre o mundo e a nossa intimidade. A parte que, todos os dias, decide o que entra. E o que pode ficar do lado de fora. Talvez seja ela que nos permita voltar para nós mesmos depois de um dia difícil. Talvez seja ela que nos ajude a perceber que nem toda crítica merece atravessar a porta. Que nem toda culpa precisa encontrar morada. Que nem todo excesso precisa virar parte da nossa história.
De repente, percebi que aquele gesto nunca foi sobre pisar. Era sobre lapidar. A cada passada, a gente vai deixando para trás um pouco do que não nos representa para entrar em casa um pouco mais próximo de quem realmente é. Talvez seja isso que fazemos a vida inteira. Vamos nos tornando quem somos muito menos pelo que acumulamos e muito mais pelo que aprendemos, delicadamente, a deixar na soleira.
Na próxima vez que você chegar em casa, olhe por alguns segundos para o seu capacho. Talvez ele não esteja apenas esperando os seus pés. Talvez ele esteja lembrando, silenciosamente, que toda casa precisa de uma fronteira. E que todo encontro consigo mesmo começa por aquilo que escolhemos não levar para dentro.
Respostas de 2
Todos os textos são maravilhosos.
fico feliz que tenham feito sentido pra vc