Delírios de Segunda

Relacionamento tipo sala

Olha quem voltou depois de uma semaninha merecida de folga. O Delírios de Segunda está de volta e, dessa vez, trazendo um convite muito especial. Não que os outros delírios…

Olha quem voltou depois de uma semaninha merecida de folga. O Delírios de Segunda está de volta e, dessa vez, trazendo um convite muito especial. Não que os outros delírios não tenham sido especiais, mas este reúne elementos que dizem muito sobre quem escreve. Além de gostar muito de falar sobre amor e relacionamentos — usando esse caminho para pensar a Psicologia — existe outra coisa que me representa profundamente: a ideia de casa.

Eu sempre fui uma pessoa muito caseira. Apesar de gostar de sair, conhecer lugares novos e encontrar pessoas, a minha casa ocupa um lugar muito especial. Recebo poucas pessoas que não conheço. Aqui é o meu templo. E digo “aqui” porque é exatamente daqui que estou escrevendo este texto. É onde guardo minhas memórias, é onde me sinto organizada emocionalmente e, curiosamente, até fisicamente.

Foi pensando nisso que surgiu um delírio diferente dos outros. Queria fazer um convite para que, nas próximas segundas-feiras, você olhasse para a sua casa comigo. Não para pensar em decoração, mas para perceber o que cada cômodo talvez tenha a nos ensinar sobre os nossos relacionamentos. E o primeiro cômodo que escolhi foi a sala. Afinal, geralmente é por ela que abrimos a porta para quem chega. Então, abrindo também a porta da minha casa — e deste site — para você, vamos começar por ela.

A sala é, por excelência, o lugar da recepção. É onde a gente quer causar uma boa impressão, onde afofa as almofadas, coloca a manta mais bonita no sofá, escolhe as melhores taças, acende uma luz mais aconchegante… tudo para receber alguém. Mas… e quando não vem ninguém?

Agora vem comigo nesse delírio. Você já conheceu algum relacionamento que parecia existir apenas quando havia outras pessoas por perto? E quando digo “existir”, estou falando de conexão. Quando o casal está sozinho, os assuntos parecem acabar, o silêncio incomoda e às vezes até o carinho fica mais distante. Mas basta chegar um casal de amigos, uma reunião de família ou um encontro qualquer… e, de repente, tudo parece voltar ao lugar. As conversas fluem, as risadas aparecem e o casal parece novamente conectado.

Quando ninguém vai visitar a casa, às vezes a sala perde um pouco da importância. As almofadas ficam desarrumadas, o sofá já não parece tão bonito, a televisão nem sempre é ligada. Mas basta alguém avisar que está chegando… e tudo muda. A cena se reconstrói. Será que alguns relacionamentos fazem exatamente isso? Será que existem relações que só conseguem se encontrar quando existe uma plateia?

Na Psicologia Sistêmica, costumamos olhar com muita atenção para as fronteiras das relações. Relações precisam de porosidade: o mundo externo precisa entrar para renovar o ar. Mas o que acontece quando uma dupla não possui uma fronteira interna preservada? Quando a intimidade a dois precisa, obrigatoriamente, de um “terceiro” — seja uma visita, um evento, um grupo de amigos ou as telas — para fazer mediação?

Na teoria, chamamos isso quase de uma performatividade relacional: a narrativa do casal só se sustenta quando há testemunhas para validá-la. Sozinhos, o vazio da falta de pauta própria e do desinteresse mútuo se torna ensurdecedor. É como se a presença do outro funcionasse como um andaime estrutural. Sem o público, a estrutura balança. E aqui mora um ponto sutil sobre a construção da identidade desse casal: parece que eles só conseguem se reconhecer como “nós” quando estão sob o reflexo dos olhos alheios.

Sabe aquele casal que ouve com frequência: “Vocês são perfeitos juntos!” ou “Como é bonito ver vocês dois!”? Às vezes, essa identidade conjugal foi construída tão de fora para dentro que o casal passa a depender desse reforço externo para se sentir vivo. O olhar do outro vira o único espelho que confirma que aquela relação existe. Eles precisam do aplauso da plateia para acreditar no próprio espetáculo, porque, quando as luzes se apagam e a porta da sala se fecha, eles não sabem mais quem são quando são apenas dois.

Antes que você conclua qualquer coisa, preciso dizer: não estou defendendo a fusão. Não defendo aqueles relacionamentos isolados em uma bolha, em que duas pessoas acreditam que bastam uma para a outra. Isso seria o oposto — e também adoece. Relacionamentos saudáveis precisam de amigos, de família, de vida social, de outras conexões e de oxigênio externo. Não é sobre viver fechado no quarto. É sobre a capacidade de sustentação. É sobre precisar da presença dos outros para conseguir acessar o afeto que, em tese, deveria ser a base do espaço comum.

E isso merece uma curiosidade clínica e honesta. O que acontece quando ficam apenas vocês dois? O que sobra dessa sala quando a porta se fecha e o palco se desfaz? O que essa sala perde quando a porta se fecha? Será que vocês ainda conseguem sentar no sofá, dividir uma pipoca, assistir a um filme, conversar sobre o dia ou simplesmente permanecer ali, sem que ninguém precise chegar para que a conexão aconteça?

Confesso que este delírio ainda está um pouco bagunçado dentro de mim. Talvez porque toda sala viva também um pouco dessa bagunça entre o que mostramos aos outros e o que realmente acontece quando a casa volta a ficar em silêncio. Mas fiquei pensando… talvez valha a pena olhar para a sua sala hoje. Não para as almofadas, nem para os quadros, mas para aquilo que só existe quando a visita vai embora. Porque, no fim das contas, talvez seja justamente aí que o relacionamento de vocês mora.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Outros artigos

Com amor, Psi

A reflexão desta semana traz algo um pouco difícil — e talvez desconfortável de digerir. ​Afinal, de quem é o

Delírios de Segunda

Depois de passar algumas semanas passeando pelos cômodos da casa, quero compartilhar com vocês um novo vício. É uma página

Sobre a autora

PATRÍCIA CALDEIRA

Há quem veja a psicologia como uma escolha de mercado. Para mim, ela sempre foi uma escolha de afeto. No final dos anos 90, quando decidi trilhar este caminho, fui movida por um chamado profundamente pessoal e afetivo.

O tempo passou, os anos de estudo se acumularam, mas aquela mesma paixão inicial permaneceu intacta — e se tornou o alicerce de tudo o que construí até aqui.

Receba novos textos quando eles chegarem.

Leituras e reflexões para te acompanhar no cotidiano.