Chegamos a mais uma segunda-feira e eu sigo com o meu convite para que você delire junto comigo, olhando para a sua casa, para os cômodos do seu lar e aprendendo um pouco com cada espaço sobre a maneira como a gente se relaciona.
O cômodo escolhido de hoje é a cozinha.
Existem várias formas de se perceber a cozinha e cada pessoa dá a ela o seu significado próprio. Mas hoje eu quero trazer a ideia dos bastidores. Geralmente, a cozinha é onde a magia da nutrição acontece, mas é também onde a bagunça se acumula. O relacionamento “tipo cozinha” é aquele em que a gente vai varrendo as insatisfações para debaixo do tapete — embora, curiosamente, quase não exista tapete na cozinha. É a ideia de ir deixando acumular dentro da pia toda a sujeira, jogando ali tudo aquilo que a gente não quer expor nos outros cômodos da casa.
A gente prepara a comida, deixa os restos na pia, a gordura nos tachos e leva apenas o prato bonito para a sala. Mas o que isso traz à luz quando pensamos na dinâmica dos relacionamentos? Fala sobre aquelas relações em que as conversas difíceis simplesmente não acontecem. Você vai escondendo o que incomoda, engolindo os sapos e, nesse processo, acaba cometendo uma violência silenciosa contra si e contra o outro. Deixa-se para trás justamente aquilo que seria fundamental para nutrir e sustentar a vida a dois.
A louça suja acumulada na pia não é apenas um incômodo visual: com o tempo, o resto de comida azeda, contamina o ar e deixa o ambiente insuportável. Na clínica, vejo muitos casais tentando cozinhar um afeto novo em cima de uma pia transbordando de ressentimentos passados. Querem a beleza da mesa posta, mas recusam o trabalho dos bastidores. Acontece que a maneira como você pré-organiza a mesa, tempera os ingredientes e encara o trabalho da pia é tão importante quanto o ato de comer a comida.
Por isso, te convido a delirar comigo sobre os segredos e as sujeiras que vocês têm guardado nos bastidores da relação. Será que, ao tentar manter a fachada impecável, vocês não estão perdendo a oportunidade de trazer mais verdade, funcionalidade e, portanto, mais amor para esse vínculo?
O amor genuíno não é construído apenas diante do prato pronto e enfeitado. Ele é construído na nossa capacidade de aceitar o outro em sua totalidade — o que inclui admirar as louças limpas, mas também ter a coragem e a parceria de lavar, juntos, as louças sujas da intimidade.