Delírios de Segunda

Relacionamento tipo Cozinha 

Chegamos a mais uma segunda-feira e eu sigo com o meu convite para que você delire junto comigo, olhando para a sua casa, para os cômodos do seu lar e…

Chegamos a mais uma segunda-feira e eu sigo com o meu convite para que você delire junto comigo, olhando para a sua casa, para os cômodos do seu lar e aprendendo um pouco com cada espaço sobre a maneira como a gente se relaciona.

O cômodo escolhido de hoje é a cozinha.

Existem várias formas de se perceber a cozinha e cada pessoa dá a ela o seu significado próprio. Mas hoje eu quero trazer a ideia dos bastidores. Geralmente, a cozinha é onde a magia da nutrição acontece, mas é também onde a bagunça se acumula. O relacionamento “tipo cozinha” é aquele em que a gente vai varrendo as insatisfações para debaixo do tapete — embora, curiosamente, quase não exista tapete na cozinha. É a ideia de ir deixando acumular dentro da pia toda a sujeira, jogando ali tudo aquilo que a gente não quer expor nos outros cômodos da casa.

A gente prepara a comida, deixa os restos na pia, a gordura nos tachos e leva apenas o prato bonito para a sala. Mas o que isso traz à luz quando pensamos na dinâmica dos relacionamentos? Fala sobre aquelas relações em que as conversas difíceis simplesmente não acontecem. Você vai escondendo o que incomoda, engolindo os sapos e, nesse processo, acaba cometendo uma violência silenciosa contra si e contra o outro. Deixa-se para trás justamente aquilo que seria fundamental para nutrir e sustentar a vida a dois.

A louça suja acumulada na pia não é apenas um incômodo visual: com o tempo, o resto de comida azeda, contamina o ar e deixa o ambiente insuportável. Na clínica, vejo muitos casais tentando cozinhar um afeto novo em cima de uma pia transbordando de ressentimentos passados. Querem a beleza da mesa posta, mas recusam o trabalho dos bastidores. Acontece que a maneira como você pré-organiza a mesa, tempera os ingredientes e encara o trabalho da pia é tão importante quanto o ato de comer a comida.

Por isso, te convido a delirar comigo sobre os segredos e as sujeiras que vocês têm guardado nos bastidores da relação. Será que, ao tentar manter a fachada impecável, vocês não estão perdendo a oportunidade de trazer mais verdade, funcionalidade e, portanto, mais amor para esse vínculo?

O amor genuíno não é construído apenas diante do prato pronto e enfeitado. Ele é construído na nossa capacidade de aceitar o outro em sua totalidade — o que inclui admirar as louças limpas, mas também ter a coragem e a parceria de lavar, juntos, as louças sujas da intimidade.

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Sobre a autora

PATRÍCIA CALDEIRA

Há quem veja a psicologia como uma escolha de mercado. Para mim, ela sempre foi uma escolha de afeto. No final dos anos 90, quando decidi trilhar este caminho, fui movida por um chamado profundamente pessoal e afetivo.

O tempo passou, os anos de estudo se acumularam, mas aquela mesma paixão inicial permaneceu intacta — e se tornou o alicerce de tudo o que construí até aqui.

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