Com amor, Psi

Quem manda na Terapia?

A reflexão desta semana traz algo um pouco difícil — e talvez desconfortável de digerir. ​Afinal, de quem é o processo terapêutico? Quem é dono dele? Existe alguém que se…

​A reflexão desta semana traz algo um pouco difícil — e talvez desconfortável de digerir.

​Afinal, de quem é o processo terapêutico? Quem é dono dele? Existe alguém que se submete ao outro? Existe hierarquia dentro da psicoterapia?

​A resposta honesta é: sim, existe uma relação de poder — como em qualquer relacionamento humano. O próprio Princípio Fundamental VII do Código de Ética da Psicologia nos lembra que o profissional deve considerar as relações de poder nos contextos em que atua e os impactos dessas relações sobre a sua prática. Mas, em uma relação funcional, essa dinâmica precisa de flexibilidade.

​Equivocadamente, convencionou-se dizer que “a sessão é 100% do paciente”, que é o cliente quem determina tudo o que acontece e como os temas serão debatidos. Mas a prática nos mostra que isso não é verdade. O processo terapêutico é coconstruído. Cada parte entra com uma contribuição indispensável:

  • ​A psicóloga ou psicólogo entra com a bagagem teórica, a expertise e o rigor da Psicologia.
  • ​O paciente entra com a sua história, suas dores e suas vivências.

​Essas duas pontas são equivalentes e igualmente importantes.

​A abordagem sistêmica nos ensina muito sobre a importância da horizontalidade e da honestidade no espaço terapêutico. Essa flexibilidade na relação é indispensável para que ambos os lados se sintam validados, valorizados e respeitados em suas posições. O paciente precisa se sentir seguro de que está sendo efetivamente ouvido — e de que, se algo sair do tom ou causar desconforto, isso poderá ser dito abertamente.

​Nas aulas que ministro e nas supervisões que conduzo, sempre faço questão de pontuar: a técnica nunca pode transpor a relação, mas a técnica existe — e a relação também. Quando só um dos lados toma as decisões, o processo entra em colapso.

​Muitas vezes, o paciente tenta impor limites que atravessam a ética ou o método do profissional. Essa relação tende a não funcionar. Do mesmo modo, o profissional jamais pode impor limites que violentem o paciente. Equacionar isso na prática diária é um desafio constante.

​Tomemos um exemplo prático: a periodicidade.

Muitas vezes, o paciente decide sozinho que as sessões passarão a ser quinzenais ou mensais por questões financeiras. No entanto, essa não é uma decisão unilateral. Cada profissional tem um método de trabalho; o espaçamento excessivo entre os encontros pode desestruturar a direção do tratamento e inviabilizar o uso de determinadas intervenções.

“Mas e quando o paciente realmente não pode pagar?”

É aí que entra a ética da negociação. Cabe ao profissional avaliar se é possível flexibilizar o valor ou ajustar a técnica sem descaracterizar o cuidado. Se não for possível, o caminho ético e responsável é o encaminhamento. Não se trata de rigidez ou falta de empatia, mas do reconhecimento dos limites do processo.

​Respeitamos quando o paciente sinaliza que não quer mexer em determinado assunto naquele momento. Mas se o profissional não compreende o que está sendo dito ou onde o processo está caminhando, ele precisa perguntar e direcionar.

​No frigir dos ovos, a clínica não é um espaço de codependência, tampouco de prestação de serviços passiva. A psicoterapia é uma coconstrução viva, pautada na transparência e no respeito mútuo.

​💬 E por aí, como você tem enxergado os limites e a horizontalidade dessa coconstrução na sua prática clínica? Vamos conversar nos comentários.

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Sobre a autora

PATRÍCIA CALDEIRA

Há quem veja a psicologia como uma escolha de mercado. Para mim, ela sempre foi uma escolha de afeto. No final dos anos 90, quando decidi trilhar este caminho, fui movida por um chamado profundamente pessoal e afetivo.

O tempo passou, os anos de estudo se acumularam, mas aquela mesma paixão inicial permaneceu intacta — e se tornou o alicerce de tudo o que construí até aqui.

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