Com amor, Psi

Psicologia não cabe em pacotes

Já faz algum tempo que tenho observado um movimento que, confesso, tem me inquietado. Cada vez mais encontro psicólogas e psicólogos vendendo e-books com “as cinco perguntas que transformam qualquer…

Já faz algum tempo que tenho observado um movimento que, confesso, tem me inquietado. Cada vez mais encontro psicólogas e psicólogos vendendo e-books com “as cinco perguntas que transformam qualquer atendimento”, roteiros prontos de sessões, manuais com possíveis respostas para diferentes demandas e, principalmente, promessas de resultados rápidos para quem busca psicoterapia. “Resolva sua ansiedade em cinco sessões.” “Supere sua depressão em poucos encontros.” “Transforme seu relacionamento com um protocolo simples.”

Antes de qualquer coisa, preciso fazer uma ressalva importante. PSICOTERAPIA BREVE EXISTE. Ela é reconhecida por diferentes abordagens da Psicologia e pode ser uma estratégia clínica extremamente potente quando existe uma demanda específica, objetivos bem delimitados e uma avaliação cuidadosa do caso. Portanto, este texto não é uma crítica à psicoterapia breve. O problema não é a brevidade do processo. O problema é a promessa de um resultado antes mesmo que o processo tenha começado.

Quando transformamos a clínica em um pacote fechado, criamos a ilusão de que pessoas funcionam como produtos: basta aplicar o protocolo correto para alcançar, inevitavelmente, o mesmo resultado. É JUSTAMENTE NESSE PONTO QUE COMEÇO A ME PERGUNTAR DE QUAL PSICOLOGIA ESTAMOS FALANDO.

Essa lógica parte de uma compreensão linear do comportamento humano. Se determinada causa produz determinado efeito, então bastaria identificar corretamente o problema e aplicar a técnica adequada para que o resultado esperado acontecesse. É uma forma de pensar que transmite segurança e previsibilidade, mas que não dá conta da complexidade dos sistemas humanos.

Foi justamente em oposição a essa lógica que Bertalanffy, ao desenvolver a Teoria Geral dos Sistemas, apresentou um conceito que considero fundamental para a prática clínica: a equifinalidade. Esse princípio nos mostra que sistemas abertos podem alcançar um mesmo estado final partindo de condições iniciais completamente diferentes e, da mesma forma, sistemas que começam de maneira muito semelhante podem produzir resultados totalmente distintos. Isso acontece porque os sistemas vivos não são determinados apenas por suas condições iniciais. Eles são continuamente transformados pelas relações que estabelecem, pelos contextos em que vivem, pelos significados que constroem e pelas inúmeras interações que acontecem ao longo do caminho.

Quando trazemos essa discussão para a clínica, percebemos o quanto seria ingênuo imaginar que duas pessoas com o mesmo diagnóstico, a mesma idade ou até histórias familiares parecidas necessariamente responderão da mesma forma a um processo terapêutico. A mudança clínica não depende exclusivamente da técnica utilizada. Ela emerge da interação entre muitos fatores: o vínculo terapêutico, o momento de vida daquela pessoa, sua rede de apoio, sua disponibilidade para o processo, sua história, sua cultura, seus recursos e tantos outros elementos que jamais conseguiremos controlar completamente.

A própria Psicologia Sistêmica nos convida a abandonar a ideia de causalidade linear. Não buscamos uma única causa para explicar um sofrimento, porque compreendemos que os fenômenos humanos são produzidos em redes de relações. Falamos em circularidade, em múltiplas determinações, em processos que se retroalimentam continuamente. Se o sofrimento humano não nasce de uma única variável, por que imaginar que ele possa ser transformado por uma única técnica ou por um número previamente definido de sessões?

Talvez seja justamente por reconhecer essa complexidade que o nosso Código de Ética seja tão cuidadoso ao tratar da divulgação dos serviços psicológicos. O Artigo 20, alínea “e”, estabelece que é vedado ao psicólogo fazer previsão taxativa de resultados ao divulgar seus serviços. E essa orientação não existe por acaso. Ela não busca limitar a atuação profissional. Ela busca proteger aquilo que constitui a essência da nossa prática: a singularidade de cada pessoa que chega até nós.

É por isso que esse tema me preocupa em duas direções.

Preocupa-me quando um profissional promete ao seu cliente que resolverá determinado sofrimento em cinco sessões. Mas preocupa-me, também, quando outro profissional compra um pacote de perguntas prontas acreditando que elas poderão ser aplicadas indistintamente a qualquer paciente.

E é aqui que eu gostaria de deixar uma reflexão.

Quando compramos um material que promete transformar qualquer atendimento por meio de um protocolo fechado, em que Psicologia estamos acreditando?

Quando vendemos ao público a ideia de que existe um caminho previamente definido para a mudança, que concepção de ser humano estamos comunicando?

Toda prática clínica parte de pressupostos epistemológicos, ainda que nem sempre tenhamos consciência deles. Há uma Psicologia que compreende pessoas como sistemas vivos, complexos, singulares e imprevisíveis. Mas também há uma Psicologia que transforma sujeitos em protocolos, sofrimento em produto e atendimento em linha de produção.

Essas duas perspectivas não produzem apenas formas diferentes de trabalhar.

Elas produzem formas diferentes de olhar para o ser humano.

E talvez seja justamente aí que a ética deixa de ser apenas um conjunto de normas e passe a revelar aquilo em que, de fato, acreditamos.

Porque, no fim das contas, nenhuma técnica é neutra. Nenhum protocolo é neutro. Nenhuma promessa é neutra.

Cada escolha que fazemos na clínica comunica uma determinada ideia de Psicologia.

E talvez a pergunta mais importante não seja se determinado pacote funciona.

A pergunta que eu deixo hoje é outra:

Que Psicologia você fortalece cada vez que compra uma promessa?

E, mais importante ainda:

Que Psicologia você oferece ao mundo cada vez que transforma a complexidade de uma vida em um pacote fechado?

COM AMOR,

PSI

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Sobre a autora

PATRÍCIA CALDEIRA

Há quem veja a psicologia como uma escolha de mercado. Para mim, ela sempre foi uma escolha de afeto. No final dos anos 90, quando decidi trilhar este caminho, fui movida por um chamado profundamente pessoal e afetivo.

O tempo passou, os anos de estudo se acumularam, mas aquela mesma paixão inicial permaneceu intacta — e se tornou o alicerce de tudo o que construí até aqui.

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