E lá vamos nós pra mais um delírio. Desta vez, estava olhando desatenta para a sala e vi um sapato jogado. Pronto! Foi o suficiente pra mente começar a delirar. Quem convive ou conviveu comigo, principalmente no contexto do trabalho no trabalho conhece o prenúncio: toque-toque-toque. O barulho característico do sapato de salto alto batendo no chão avisa, antes mesmo de eu dobrar a esquina, que a Patrícia Caldeira está chegando. Esse barulho já foi motivo de elogios, de piadas carinhosas e virou uma espécie de marca registrada. E no meio do meu delírio me peguei refletindo sobre o que esses centímetros a mais sob os meus pés realmente significam.
Se a gente voltar na história profunda do salto alto, vai encontrar um símbolo antagônico (Ah! Como amo isso!). Ele nasceu no guarda-roupa masculino e, tempos depois, foi apropriado pelas mulheres quase como um manifesto feminista: uma tentativa visual de impor igualdade e se equiparar aos homens. Curiosamente, o tempo passou e o salto foi empurrado para o extremo oposto: passou a ser visto por muitos como um símbolo antifeminista, um instrumento de tortura e desconforto aceito pelas mulheres apenas para se manterem desejáveis dentro de um padrão. Isso por si só já dava um bom post, mas vamos seguir …
O salto nunca ocupou esse lugar de submissão estética na minha vida. Para mim, ele sempre trouxe… conforto. E para entender isso, preciso fazer um recorte geracional da família Caldeira.
Minha mãe e minha avó materna sempre foram mulheres impecavelmente vaidosas, e o salto alto era a assinatura visual dessa vaidade. Eu cresci olhando para a minha mãe saindo para trabalhar, achando-a a mulher mais elegante e poderosa do mundo em cima daqueles sapatos. Quando o tempo passou e eu fui finalmente “autorizada” a usar o meu primeiro salto, a sensação foi mágica: “Olha, eu cresci. Agora eu posso ser parecida com elas”.
O problema é que, na Psicologia Sistêmica, a gente aprende que a busca pelo pertencimento pode nos pregar peças. Durante um bom tempo, o salto ocupou na minha vida o lugar de um pseudo-self — aquela identidade que a gente adota, de forma quase inconsciente, para dar conta de uma demanda familiar e garantir o nosso lugar no sistema.
Quando me dei conta de que estava operando no automático, tentei usar um padrão clássico e reativo: a rebeldia. Decidi que precisava ser diferente. Eu precisava “não ser a minha mãe”, “não ser a Eloísa”. Fiz uma loucura e montei uma verdadeira coleção de tênis.
Foi aí que esbarrei no terceiro conceito sistêmico dessa história: a cerca de borracha. Quando a gente tenta se afastar das nossas referências puramente pela rebeldia, sem uma diferenciação real, a vida dá um jeito de nos esticar e nos puxar de volta com força. No meu caso, o puxão foi literal. Comecei a sentir dores físicas intensas na panturrilha por usar salto baixo. Meu corpo estava rejeitando a rebeldia artificial.
Foi sentindo dor que eu entendi: eu tenho os meus personagens internos. O salto baixo e o tênis fazem sentido em alguns momentos? Sim (embora bem menos, confesso!). Mas o salto alto me representa. A diferença é que hoje ele me representa, mas não me aprisiona.
Eu já usei o salto como uma necessidade de referência (para imitar minha mãe e minha avó). Já usei como mecanismo compensatório (porque tinha vergonha da minha altura). Hoje, eu uso o salto simplesmente porque me sinto bonita. E esse “sentir-se bonita” aqui não é futilidade estética; é autoamor. É a Patrícia Caldeira celebrando a sua diferenciação de self.
Por mais que esse post mais pareça uma confissão, o meu objetivo é sempre te convidar a refletir sobre quem você costuma ser, sobre os lugares que ocupa e sobre as dores e prazeres que isso pode gerar. O salto alto, por si só, é só um objeto. O significado dele quem dá é você. Se ele aperta, machuca e você continua usando só para manter uma imagem, ele é um pseudo-self. Se ele te liberta, te eleva e te faz sentir mais conectada com quem você é, ele é prova de liberdade.
Eu encontrei o equilíbrio no meu toque-toque. E você? Mesmo que não use salto alto, qual é o “sapato” que você tem calçado na sua rotina? Ele tem te representado ou tem te aprisionado?
Boa segunda-feira!
Respostas de 6
Eu sendo homem gay usei esse “sapato” por muitos anos. Formas de falar, andar, gesticular, expressar carinho me foram “presenteados” tacitamente como o jeito certo de existir, com a justificativa “me preocupo com a violência que você pode sofrer lá fora”. Aceitei e replicava isso dentro de casa, pois o receio de não seguir a “regra” me colocava no lugar de medo de não ser aceito. E isso era angustiante. O gay aceito seria aquele que gerava a frase “você é gay? Mas nem parece!” E eu cheguei considerar isso um elogio. Até que com maturidade e terapia, questionei “como pode ser um elogio alguém aparentar ser quem não é?” A partir daí fui percebendo as nuances de preconceito dentro da família.
Tirei o “sapato” e percebi que ali já tinha outro, só meu, e por isso o outro “apertava” muito. Hoje consigo existir da minha forma, pois o MEU sapato não aperta. Ele me permite caminhar por solos antes não explorados plenamente.
Usar um sapato que não aperta é privilegio de poucos. Fico feliz que tenha encontrado seu sapato de bravura para explorar. Muito obrigada por compartilhar parte de sua história aqui, de verdade!
Adorei sua postagem! ❤️
Por muito tempo eu deixei de usar salto por causa da minha altura. Sou muito alta e tinha vergonha de ficar ainda mais alta. Demorei para entender que isso era uma limitação que eu mesma carregava.
Hoje me libertei disso. Uso salto porque gosto, mas também uso sapatilha, tênis… e está tudo bem. O que realmente importa não é o que os outros pensam, e sim como eu me sinto.
E lendo seu texto, me veio uma lembrança muito especial: você chegando para dar aula numa sexta-feira à noite, depois de um dia que provavelmente já tinha sido muito cansativo, sempre impecável e com um salto enorme. Isso sempre me chamava muito a atenção e transmitia uma presença e uma segurança admiráveis.
Parabéns pela postagem! Ela nos faz refletir sobre quantas vezes deixamos de fazer algo por medo do julgamento dos outros. Que bom quando conseguimos nos libertar disso.
Muito obrigada por compartilhar sua jornada com os “saltos”aqui. Fico muito feliz que tenha encontrado um espaço para usar aquilo que te REPRESENTA. Quantoä lembrança das minha entradas em sala de aula, posso compartilhar contigo a minha admiraçào ao olhar para a turma e ver vc sempre atenta, curiosa e faminta por conhecimento. Que privilégio o meu!!!
Como é interessante perceber como nossas histórias atravessam nossas grandes e as pequenas escolhas. Em um momento, elas nos despertam a vontade de ser “igual”; em outro, a busca pela “liberdade”. O que mais me chama a atenção é como, nesse movimento dialético, você foi construindo sua própria forma de ser: nem reproduzindo um padrão, nem fugindo dele, mas sendo simplesmente Patrícia.
Ser simplemente e complexamente NOS MESMAS exige(infelizmente) muito e por isso muitos desistem. Eu me mantenho engajada, nem todos os dias, mas sempre engajada!