Para quem estava com saudade dos Delírios de Segunda, estou de volta.
Depois de passar algumas semanas passeando pelos cômodos da casa, quero compartilhar com vocês um novo vício. É uma página no Instagram de dois pinguins chamada Cosy Paw Tales, e os personagens são Amber e Frost. Eles são fofos em níveis extremos, mas definitivamente este post não é apenas sobre eles.
Hoje eu queria falar sobre a romantização dos pinguins. Muito se fala sobre a monogamia no mundo animal, sobre como eles escolheriam um parceiro para a vida inteira e seriam um exemplo de paternidade só porque o macho cuida dos ovos.
Mas será que é isso mesmo?
Quero trazer uma visão um pouco mais crítica sobre essa idealização, porque ela se parece muito com o que a gente faz na vida: aquela história de que a grama do vizinho é sempre mais verde, a busca por um relacionamento ideal e sem defeitos.
Enfim… vamos explorar um pouco desse mundo animal?
Não sou bióloga — se tiver algum biólogo por aqui e quiser me corrigir, tá tudo certo —, mas, segundo as pesquisas que fiz, é preciso fazer algumas distinções. Afinal, a gente fala dos pinguins como se todos vivessem exatamente da mesma maneira. E não é bem assim.
Quando falo dessa relação entre território, parceiro e permanência, estou me referindo especialmente aos pinguins-de-Magalhães (e até entre os imperadores, na dinâmica dos ovos). Mesmo neles, a monogamia não é tão simples quanto imaginamos. Ela tem muito mais a ver com uma estrutura social e reprodutiva de sobrevivência do que com uma escolha de afeto, como nós, seres humanos, costumamos pensar.
Se o macho chega ao ninho a tempo para o ciclo reprodutivo, a parceria se mantém. Se ele se atrasa e outro chega antes, a fila anda. A prioridade é a manutenção da espécie, não a preservação do par romanticamente escolhido.
E AÍ VOCÊ PODE PENSAR: TÁ, PATRÍCIA, MAS O QUE ISSO TEM A VER COM A NOSSA VIDA COTIDIANA?
Muitas vezes, a nossa própria manutenção de certas estruturas de relacionamento não tem a ver com afeto, escolha consciente ou identificação com o parceiro. Tem a ver apenas com a manutenção de um papel social. A gente olha para esses bichos e suspira: “Ai, que exemplo! Eles ficam velhinhos juntos.” Mas a realidade não é bem essa.
E talvez seja justamente aí que reside o encanto da página que virou meu novo vício.
Amber e Frost, apesar de serem personagens fictícios, não vivem esse relacionamento perfeito que a gente projeta nos pinguins. Eles são diferentes. Às vezes um é mais infantil, o outro é mais rígido. Às vezes eles discutem e parecem não se entender. Mas eles conversam. Eles se resolvem.
E foi isso que me prendeu: a beleza da imperfeição.
Existe algo profundamente rico em olhar para uma relação que não é feita apenas de harmonia passiva ou de dois seres que parecem ter sido moldados um para o outro. Eles têm conflitos e características que incomodam. Ainda assim, existe ali espaço para negociação, encontro e reparação.
O mesmo vale para a tal “paternidade exemplar” do macho.
Passei a semana lendo sobre isso e vi que o processo de botar o ovo é tão desgastante para a fêmea que ela precisa se afastar por semanas no oceano para não morrer de exaustão. Algo muito parecido com o que vemos na maternidade humana: o dar à luz e o cuidar não são eventos romantizados; exigem um corpo, trazem custos e demandam tempo de recuperação.
Enquanto a fêmea busca forças no mar, fica sob a responsabilidade exclusiva do macho chocar esse ovo. Só que ele também se exaure. Ele não come por semanas, enfrenta ventos congelantes e fica em alerta ininterrupto, porque o ovo não pode tocar o gelo por segundo algum.
O que temos aí é uma divisão de papéis extremamente rígida. E quando não há flexibilidade — quando apenas mantemos uma estrutura a qualquer custo —, o preço pago pela saúde física e mental é altíssimo.
Se sairmos do ecossistema dos pinguins e olharmos para nós, enquanto sociedade: quantas vezes escolhemos papéis engessados? Quantas vezes deixamos de flexibilizar, de comunicar nossos limites e vulnerabilidades, só para corresponder a uma expectativa que nem fomos nós que criamos?
A gente olha para a estrutura e decide que ela é uma meta: “Olha que lindo. Olha que exemplo de companheirismo. Veja como eles permanecem juntos.” Mas raramente perguntamos sobre o custo de sustentar esse ideal.
Talvez você esteja colocando a dinâmica dos pinguins como meta enquanto eles estão se desgastando, passando fome e correndo contra o tempo para não perder a vaga no ninho.
A pergunta que fica não é se a estrutura funciona ou não. A pergunta é: ela funciona para quem? Em quais circunstâncias? E a que custo?
Tudo bem, pode ser que eu tenha delirado bastante nesta segunda-feira. Mas meu objetivo aqui é te convidar a pensar que nem toda estrutura rígida é funcional, e que nem tudo o que a gente romantiza faz sentido para a nossa vida real.
É por isso que Amber e Frost me ganharam. Não por serem o casal perfeito, mas porque, na historinha deles, existe espaço para a diferença, para o conflito, para a vulnerabilidade e para a escolha.
Relacionamento tem muito menos a ver com encontrar alguém que se encaixe perfeitamente na nossa vida e muito mais a ver com descobrir o que duas pessoas diferentes conseguem construir quando não precisam ser iguais para permanecer juntas. E, mais do que isso: quando sabem que não precisam permanecer juntas se aquilo deixar de fazer sentido.
Enquanto a gente continuar romantizando a rigidez, os pinguins vão seguir correndo contra o tempo, passando fome para manter o ninho… e a gente? Ah, a gente finge que essa história também não é sobre nós.