Se você já esteve no papel de psicoterapeuta — seja nos primeiros atendimentos do estágio ou após anos de formatação clínica —, provavelmente já viveu aquele segundo que parece durar uma eternidade: o silêncio do paciente. De repente, as palavras sobem, o relógio parece bater mais alto e uma necessidade quase ansiosa de preencher o espaço começa a gritar dentro de você.
Muitos profissionais olham para o silêncio como um erro de percurso, um vácuo que precisa ser consertado com a próxima pergunta do roteiro. Mas e se a gente mudasse a lente?
Para entender o silêncio sem desespero, precisamos lançar mão de um dos pilares da Psicologia Sistêmica: a Teoria da Comunicação Humana, de Paul Watzlawick. Seu primeiro axioma é categórico: é impossível não se comunicar. Todo comportamento é uma forma de comunicação. Portanto, quando o seu cliente escolhe o silêncio, ele não parou de falar; ELE APENAS MUDOU O DIALETO.
Esse silêncio pode significar muitas coisas. Pode ser um convite para que você, psi, fale. Mas também pode ser um pedido desesperado para que você ouça melhor, para que pare de fazer tantas perguntas e aumente o tamanho da sua escuta. O silêncio dá ao setting a oportunidade preciosa de respirar. É o tempo que os dois lados precisam para reorganizar a sessão e digerir o que foi dito.
É aqui que entra o segundo axioma de Watzlawick: toda comunicação tem um aspecto de conteúdo e um aspecto de relação. O silêncio é o conteúdo. Mas qual é a relação?
Se você, enquanto psi, não compreende o significado dos silêncios na sua própria história, corre o risco de contaminar o processo do outro. Se na sua vida pessoal você já se sentiu violentada, ignorado ou punida pelo silêncio de alguém, a sua tendência na clínica será interpretar o silêncio do paciente através dessa ferida que é sua, e não dele. Se o silêncio do consultório está sendo ensurdecedor e angustiante para você, talvez seja a hora de reavaliar as suas próprias histórias de silêncio na supervisão ou na terapia pessoal.
A beleza da abordagem sistêmica é que nós não levamos dúvida para casa. Nossa prática é horizontal, transparente e totalmente colaborativa. Se o significado daquele silêncio começar a te incomodar ou parecer confuso, o caminho não é tentar adivinhar ou preencher o espaço com teorias prontas. Primeiro, respeite o tempo do paciente. Depois, faça uma pergunta honesta e corajosa:
“Quando você fica em silêncio, o que você espera que eu faça?”
Uma pergunta simples como essa desarma as defesas e traz os dois de volta para o aqui-agora do setting. Ela abre espaço para um cuidado co-construído, onde o paciente participa ativamente do manejo.
Cada sujeito usa o silêncio de uma maneira única, e nós precisamos ampliar os nossos ouvidos para captar essas nuances. Às vezes, o melhor tipo de cuidado que você pode oferecer é, simplesmente, calar a sua própria ansiedade para que o cliente consiga escutar a si mesmo. Que a gente aprenda a respeitar e a habitar os silêncios.
Com amor, Psi.