Delírios de Segunda

O paradoxo do cacto: quando o afeto encharca a alma

Tem algo sobre mim que pouquíssimas pessoas sabem: eu amo cactus. Como boa baiana, nascida e criada no calor úmido e litorâneo de Salvador, o cacto nunca foi uma necessidade…

Tem algo sobre mim que pouquíssimas pessoas sabem: eu amo cactus. Como boa baiana, nascida e criada no calor úmido e litorâneo de Salvador, o cacto nunca foi uma necessidade geográfica ou climática para mim. Foi uma escolha afetiva e silenciosa. Silenciosa porque nunca me dei um de presente, sempre admirei de longe. Sempre olhei para essa planta com uma sensibilidade miúda e muito particular, talvez porque, no fundo, eu reconhecesse nela um tipo de espelho. Eu sou psicóloga, sou cuidadora. E, muitas vezes, quem vive de proteger o outro se perde no labirinto de não saber como baixar a própria guarda.

O senso comum idolatra o cacto por sua resiliência. Dizem que ele é autossuficiente, que aguenta o sol mais escaldante e a seca mais severa. Mas se você perguntar a um botânico o que realmente mata um cacto, a resposta é, no mínimo, intrigante: não é a escassez. É o excesso de água. O cacto morre afogado por dentro se o solo for encharcado. Suas raízes apodrecem com aquilo que, para qualquer outra planta, seria sinônimo de vida.

Na clínica, eu atendo e convivo com muitos “humanos-cactos”. São pessoas que foram educadas em sistemas familiares profundamente vulneráveis. Quase sempre, ocuparam o lugar que a psicologia chama de filhos parentalizados: crianças que precisaram virar adultas antes do tempo para sustentar a fragilidade dos pais ou proteger a estrutura da casa.

Para que aquele teto não desabasse, o script era claro: “Você precisa ser forte. Você não pode dar trabalho ou exigir atenção, porque a estrutura já está no limite”. Para sobreviver e proteger o sistema, essa criança cria espinhos. Uma couraça reativa, uma postura de quem dá conta de tudo sozinha. Ela aprende a funcionar com o mínimo de água — ou seja, com o mínimo de colo, de validação e de cuidado direcionado a ela.

Geralmente, na rede familiar do humano-cacto, existe alguém que precisa de “muita água”, alguém cuja fragilidade transborda. Ao testemunhar isso, o humano-cacto desenvolve uma repulsa reativa à vulnerabilidade alheia. Para ele, precisar de acalento, de colo ou assumir a carência passa a ser lido como um sinal de fraqueza. O pensamento rígido se instala: “Eu fui criado para segurar os fracos, não para me dar ao luxo de ser frágil”.

O grande drama do humano-cacto deságua na vida adulta, bem longe do núcleo familiar. Quando ele entra em relacionamentos amorosos ou sociais, ele leva os seus espinhos na bagagem. No amor, o jogo se torna dolorosamente injusto. Ele assume uma postura implícita: “Olha, você pode me dar muito pouco. Qualquer migalha está suficiente, eu não preciso de quase nada”. Enquanto aceita os restos, ele entrega a própria vida, o próprio tempo e toda a sua energia para nutrir o parceiro, recusando-se a receber na mesma proporção em que oferece.

Por que receber cuidado assusta tanto? PORQUE O AFETO ENCHARCA. E quando alguém chega com um regador cheio de amor real e gentileza genuína, o humano-cacto entra em pânico. Permitir que o cuidado entre significa amolecer a couraça. Significa mexer na terra onde estão suas raízes — e as raízes representam a sua história familiar, o único lugar onde ele aprendeu a se reconhecer como alguém “útil”. Se o afeto encharcar a base, ele sente que a sua própria identidade vai desmoronar. Para salvar as raízes, ele ativa os espinhos e afasta o amor.

Mas há algo que o senso comum quase nunca comenta sobre o cacto: ele floresce. E a flor do cacto é uma das coisas mais deslumbrantes que a natureza é capaz de produzir.

O processo terapêutico é, em essência, o espaço seguro que permite esse florescer. É o lugar onde o humano-cacto pode, finalmente, compreender o ambiente de escassez de onde veio, honrar a força que teve para sobreviver ali, mas tomar a decisão mais libertadora de todas: se demitir do cargo de cuidador em tempo integral do mundo. Florescer é reconhecer que a vulnerabilidade não nos deixa fracos, nos deixa humanos. É entender que é possível conquistar novos espaços nas relações sem precisar “espetar” quem tenta se aproximar, e que O AMOR VERDADEIRO NÃO NOS AFOGA, NOS NUTRE.

Dentro da minha própria jornada pessoal, eu precisei fazer esse caminho. Precisei olhar para a minha história sob uma nova ótica, me negar a ocupar unicamente o papel daquela que sustenta tudo e abrir espaço na minha terra para ser cuidada. Hoje, eu me permito ser regada pelo afeto dos meus amigos, da minha família e, sim, pelo carinho generoso dos meus alunos e pacientes.

Nós, que passamos a vida nos especializando em cuidar, também merecemos o descanso da terra fértil. Que a gente possa acolher a água que chega, sem medo de perder as raízes. Afinal, mesmo nos terrenos mais áridos da nossa história, a vida sempre encontra um jeito de florescer.

Os. Esse cacto da foto é o meu primeiro e não é a toa que ele esta na companhia de Frida rsrs.

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Sobre a autora

PATRÍCIA CALDEIRA

Há quem veja a psicologia como uma escolha de mercado. Para mim, ela sempre foi uma escolha de afeto. No final dos anos 90, quando decidi trilhar este caminho, fui movida por um chamado profundamente pessoal e afetivo.

O tempo passou, os anos de estudo se acumularam, mas aquela mesma paixão inicial permaneceu intacta — e se tornou o alicerce de tudo o que construí até aqui.

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