Hoje é 27 de agosto, Dia da Psicóloga. E, ao sentar para escrever, me vi tomada pelo desejo de falar de novo sobre amor — mas, dessa vez, costurando esse sentimento com a própria prática da Psicologia.
Essa não é uma conversa só para psicólogas ou estudantes. É um texto para todo mundo que consome, já consumiu ou em algum momento pensou em se aproximar da Psicologia de alguma forma.
Gosto muito da ideia do amor genuíno que Humberto Maturana propõe. Ele fala sobre um acolhimento integral: sobre a gente olhar o outro, ver o outro e senti-lo em toda a sua complexidade e totalidade. E é exatamente isso que, para mim, deveria acontecer no espaço da psicoterapia.
Só que olhar e acolher o outro não significa concordar com tudo. Não significa validar indiscriminadamente. E também não significa evitar o tensionamento.
Desconforto. Acho que essa é a palavra.
Existe uma beleza em perceber que é possível, sim, gerar desconforto sem violentar. Um desconforto voltado para a reflexão, para a descoberta e, principalmente, para a potência que cada um carrega.
A ideia da psicoterapia é que, dentro da sala de atendimento, a gente consiga construir uma relação tão genuinamente honesta que você se sinta finalmente confortável para estar desconfortável. Que se sinta convidado a olhar para dentro e encarar até aquelas partes mais escondidas — aquelas que talvez você tenha aprendido a rejeitar, mas que também precisam e merecem ser amadas.
É claro que nem todo momento pede tensionamento. Às vezes, acolher é sustentar, acompanhar, silenciar e simplesmente permanecer. Mas existem momentos em que não tensionar também pode significar deixar o outro aprisionado exatamente no lugar em que chegou.
Porque, quando a gente não questiona, não oferece a possibilidade de que o outro se perceba de outra maneira. Quando a gente não tensiona, pode não criar espaço para que ele experimente outras posições, outras narrativas, outras formas de existir.
No fim das contas, a ideia de que a Psicologia é um acolhimento sem limites não faz muito sentido para mim. Porque isso não tem a ver com o amor de verdade.
Amar não é impedir que o outro se transforme.
É olhar para o outro em sua totalidade — inclusive para aquilo que ainda precisa ser transformado — e continuar reconhecendo sua potência.
Hoje é o Dia da Psicóloga. E hoje é dia de celebrar o afeto que sustenta essa profissão, mas também de celebrar o desconforto acolhedor que só uma relação genuína de amor é capaz de criar.
Porque talvez seja esse o lugar mais bonito que uma psicoterapia possa oferecer: um espaço seguro o suficiente para que alguém possa, finalmente, ter coragem de se encontrar.
Com amor,
Psi.