Delírios de Segunda

O balanço da rede e a arte sagrada de abraçar o que nos aperta

Quem olha de fora e vê alguém deitado em uma rede, imediatamente projeta a imagem do descanso perfeito. Mas quem foi criado perto de uma sabe que a realidade é…

Quem olha de fora e vê alguém deitado em uma rede, imediatamente projeta a imagem do descanso perfeito. Mas quem foi criado perto de uma sabe que a realidade é bem mais sutil. Eu sou baiana, nordestina, e a rede fez parte do cenário da minha infância. Algumas das memórias mais preciosas que guardo com o meu irmão — uma das relações mais importantes da minha vida — aconteceram ali, entre brincadeiras embaladas pelo vai e vem de uma rede.

Mas essa minha conexão com a rede tem raízes ainda mais profundas, que correm no meu sangue. Como descendente de povos indígenas, trago na pele e na alma essa herança — inclusive em uma tatuagem gravada com palavras em tupi. E a história nos mostra que a rede (ini, em tupi) nasceu da sabedoria dos povos originários. Para eles, a rede nunca foi um mero objeto, mas o centro da vida comunitária e do descanso. E, na visão indígena, descansar é um ato SAGRADO. Não é um vazio ou falta de produtividade; é o momento em que o corpo e o espírito se organizam e se regeneram.

Crescer ao redor da rede me fez notar algo curioso sobre ela: se pararmos para analisar friamente, a rede não é nada anatômica. Ela te molda, te aperta, limita as suas posições. E foi exatamente aí que meu olhar começou a delirar nesta segunda-feira, cruzando a psicologia sistêmica com a força da minha ancestralidade.

Para descansar em uma rede, você precisa fazer um pacto silencioso com a falta de espaço e com o encaixe imperfeito. É aprender a relaxar junto com as suas próprias tensões. E não é exatamente isso o que a gente tenta fazer com a nossa mente?

Muitas vezes, passamos a vida tratando nossas dúvidas, feridas e angústias como inimigas que precisam ser eliminadas a qualquer custo. Buscamos uma existência com formato de “cama King Size” — reta, espaçosa, impecável. Mas o descanso real, aquele que nos organiza enquanto pessoas, está na capacidade de encontrar paz mesmo quando o cenário não é o ideal. É respirar fundo no compasso das nossas próprias contradições. Esse retorno ao próprio centro, mesmo no desconforto, é o que torna o descanso um ato sagrado.

E o delírio fica ainda mais bonito quando entra o outro. Deitar sozinho na rede tem a sua melodia, o seu ritmo próprio de autodescoberta. Mas quando você convida alguém para dividir esse espaço com você, o gesto ganha outro significado. Dividir a rede é dizer: “Se achegue aqui, no meu desconforto, e vamos encontrar um equilíbrio juntos”.

É um convite para nos abraçarmos no imperfeito. Não é sobre oferecer um lugar sem problemas, mas sobre a disposição de caminhar e se balançar junto, no ritmo da vida, mesmo quando o espaço é estreito.

Nesta segunda-feira, inspirada pela sabedoria que meus antepassados já sabiam de cor, eu te convido a resgatar o sagrado que existe em desacelerar. Que tal olhar para o que te aperta hoje com um pouco mais de afeto e se permitir organizar através do descanso? Encontre o seu ritmo, siga a sua melodia e boa semana!

Respostas de 4

  1. Amei sua reflexão!! A sua analogia com chamar alguém para embalar junto na rede, retrata de fato uma relação com duas pessoas diferentes, com histórias de vida diferentes e que além do querer ficar junto, vem o molde, o encaixe que nem sempre vai ser perfeito e nem confortável… mas que com jeitinho, se permitindo pode ser o melhor lugar no mundo!!!

    1. Ah o encaixe!!!Se sentir aconchegado é uma das melhores sensaçoes no mundo e vc usou a expressão perfeita: se permitir.

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Sobre a autora

PATRÍCIA CALDEIRA

Há quem veja a psicologia como uma escolha de mercado. Para mim, ela sempre foi uma escolha de afeto. No final dos anos 90, quando decidi trilhar este caminho, fui movida por um chamado profundamente pessoal e afetivo.

O tempo passou, os anos de estudo se acumularam, mas aquela mesma paixão inicial permaneceu intacta — e se tornou o alicerce de tudo o que construí até aqui.

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