Resenha de Quinta

“Mensagens para Isabelle”: o amor real e suas lindas mensagens

Confissão de bastidor: este filme não era a minha primeira opção para a resenha desta semana. Eu já tinha deixado separado um longa mais antigo, daqueles que guardo em um…

Confissão de bastidor: este filme não era a minha primeira opção para a resenha desta semana. Eu já tinha deixado separado um longa mais antigo, daqueles que guardo em um lugar muito quentinho e afetivo na minha vida. Mas no sábado eu dei o play em uma novidade da Netflix e fui completamente capturada. Eu precisei mudar os planos.

Como o nome deste quadro bem diz, esta é uma resenha de quinta. E, embora eu escreva a partir do meu olhar de psicóloga sistêmica, quem está aqui digitando é a Patrícia — com toda a minha história, minhas dores e meus afetos. Por isso, sinta-se muito à vontade para discordar e ter as suas próprias percepções. Afinal, a psicologia nos ensina que cada um lê o mundo a partir de onde pisa.

Mensagens para Isabelle (Voicemails for Isabelle) acabou de estrear e fala, primordialmente, sobre a relação entre duas irmãs. E quem me acompanha por aqui, ou senta comigo nas minhas rodas de amigos e salas de aula, sabe: a fraternidade me desarma. Eu tenho uma relação de profundo amor pelo meu irmão. Nós nos construímos e nos fizemos pessoas muito dentro desse laço. Durante muito tempo, o papel de ser irmã ocupou um espaço maior na minha vida do que qualquer outro papel. Por isso, o filme me pescou logo no primeiro minuto.

(E preciso abrir um parêntese muito honesto aqui: eu estou genuinamente emocionada escrevendo este texto, engolindo o choro enquanto as palavras saem).

Na trama, a protagonista Jill (Zoey Deutch) está tentando lidar com o luto dilacerante da perda de sua irmã caçula, Isabelle (Ciara Bravo). Para dar conta da dor e manter o ritual de intimidade que as duas tinham, Jill continua ligando para o antigo número da irmã e deixando mensagens de voz detalhadas sobre a sua rotina, seus encontros desastrosos e suas dores. O que ela não sabe é que a linha foi desativada e repassada para Wes (Nick Robinson), que começa a ouvir e a se apaixonar por aquela voz.

O que me fascinou na construção da Jill é o quanto ela funciona de forma combativa. Desde menina, diante da fragilidade física de Isabelle, Jill sentiu a necessidade quase inconsciente de ser o oposto: a forte, a durona. Em uma das primeiras cenas do filme, quando um coleguinha de escola faz um comentário maldoso sobre a doença de Isabelle, Jill vai para cima dele para bater. Quando ela conta para a irmã, Isabelle simplesmente ri e diz que não ligava para aquilo. Ou seja: esse perfil superprotetor e armado nunca foi solicitado por Isabelle; foi uma couraça que a própria Jill resolveu criar para se defender enquanto defendia o seu sistema.

Ao longo do filme, acompanhamos o processo de diferenciação do self da Jill. Ela vive em uma ambiguidade dolorosa: no trabalho, ela aceita e se submete a muitas violências cotidianas; mas nas relações amorosas, ao menor sinal de vulnerabilidade, ela ataca e vai para o combate. A grande virada de chave da personagem acontece quando ela aprende a direcionar a sua força: ela consegue ser combativa onde realmente precisa (impondo-se e soltando sua raiva no ambiente profissional) e se permite desarmar, chorar e ser frágil na relação afetiva.

Do outro lado, temos o Wes, que também vive preso às suas próprias amarras e defesas. Ele se aproxima de Jill na vida real com o que podemos chamar de “informações privilegiadas”, pois já conhecia todos os segredos e gostos dela através dos áudios. Mas o filme deixa claro que o Wes faz isso em todas as áreas da vida. No trabalho de corretor, ele usa dados e truques para garantir a venda. Nas relações românticas, usa sempre o mesmo script infalível para conquistar as mulheres.

Por que ele faz isso? Por medo. Wes usa as informações privilegiadas como uma blindagem para não ter que colocar à prova as suas verdadeiras habilidades. É o medo de se perguntar: “Será que eu sou realmente um bom namorado? Será que sou um bom vendedor sendo apenas eu mesmo?”. Para não correr o risco da rejeição, ele prefere o personagem do que o real. A curva de amadurecimento do Wes acontece quando ele finalmente se permite olhar no espelho e entender que ele tem valor, e que pode ser visto e amado exatamente por quem ele é, sem truques.

Para os olhos mais desatentos, o longa pode parecer uma “Sessão da Tarde” boba, um romance mamão com açúcar. Mas se você olhar com a sensibilidade da alma, vai perceber que ele é a própria tradução do amor biológico de Humberto Maturana. É o amor genuíno em sua máxima potência.

Vemos isso na relação das irmãs. Isabelle enfrentou uma saúde frágil a vida inteira. E há uma beleza dolorosa nisso: a irmã doente queria experimentar a vida através da saúde de Jill; e Jill, saudável fisicamente, só conseguia caminhar pelo mundo guiada pela sensibilidade de Isabelle. É a prova de que o afeto real aceita a totalidade do outro. O que o senso comum aponta como limite ou problema não nos impede de amar. É o “apesar de” que eu tanto defendo. Essa rede ganha contornos ainda mais lindos com os pais das duas, que sabem dar limites firmes à dor da casa, mas sem nunca abrir mão do acolhimento.

A maior lição que tiro dessa história é que, quando as nossas vulnerabilidades se encontram — não para competir por traumas, mas para se conectarem na crueza de quem somos —, a vida floresce. E que, no final do dia, quando o assunto é o afeto real, sempre vale a pena se arriscar.

Voltando a Jill e Wes…Essa jornada de diferenciação dos dois é o que nos mostra o que é o verdadeiro amor. Eles não são “duas metades” que se encontram para se completar; são dois inteiros. E quando digo inteiros, não significa que são perfeitos. São inteiros cheios de furinhos — os furinhos das suas feridas, das suas histórias e inabilidades. Um não precisa do outro para estar vivo ou para ser alguém, mas ambos escolhem estar juntos para co-construir uma vida.

Assista com o coração aberto e depois venha conversar comigo. Existe muita psicologia ali no meio. Mas, principalmente, existe amor.

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Sobre a autora

PATRÍCIA CALDEIRA

Há quem veja a psicologia como uma escolha de mercado. Para mim, ela sempre foi uma escolha de afeto. No final dos anos 90, quando decidi trilhar este caminho, fui movida por um chamado profundamente pessoal e afetivo.

O tempo passou, os anos de estudo se acumularam, mas aquela mesma paixão inicial permaneceu intacta — e se tornou o alicerce de tudo o que construí até aqui.

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