Delírios de Segunda

Meias, sim, meias e relacionamentos.

Eu nunca fui uma pessoa de usar meias. Nasci e vivi boa parte da minha vida em Salvador, onde meus pés nunca precisaram de muita proteção contra o frio. Só…

Hoje eu vou falar de meias. Sim, meias.

E eu tenho quase certeza de que, até aqui, você deve estar pensando que o delírio desta segunda finalmente passou dos limites. Mas me acompanha.

Eu nunca fui uma pessoa de usar meias. Nasci e vivi boa parte da minha vida em Salvador, onde meus pés nunca precisaram de muita proteção contra o frio. Só que a vida muda. Me mudei para Brasília e descobri que algumas noites daqui conversam diretamente com a sola dos pés. Resolvi comprar uma meia para dormir. Na primeira noite, foi um desastre. Ela esquentava, é verdade. Mas apertava minha perna, dava coceira e, no meio da madrugada, eu a tirei com a mesma pressa de quem tenta se livrar de um incômodo que já passou do limite.

No dia seguinte, pensei:

Será que o problema são as meias?

E foi exatamente aí que eu lembrei das inúmeras conversas que tenho, tanto na clínica quanto fora dela, sobre relacionamentos.Depois de viver uma relação que machuca, muita gente conclui que talvez seja melhor nunca mais se envolver com ninguém. Outras pessoas sentem falta de um vínculo e imediatamente se culpam por isso.

“Será que é carência?”

“Será que eu deveria aprender a ficar sozinho?”

“Será que existe alguém capaz de curar o que o outro deixou?”

Curiosamente, quase nunca a pergunta é:

Do que eu preciso?

Não do que esperam que eu precise.

Não do que disseram que seria uma vida bem vivida.

Mas do que realmente faz sentido para mim.

Talvez essa seja uma das formas mais silenciosas da toxicidade. Nem sempre ela aparece nas grandes explosões ou nas violências mais evidentes. Às vezes, ela se instala quando o vínculo deixa de ser um lugar de acolhimento e passa a ser um espaço onde precisamos nos diminuir para caber. Quando aquilo que deveria aquecer começa a apertar, limitar nossos movimentos e fazer o corpo inteiro pedir alívio. Há quem permaneça ali porque acredita que sentir algum calor — ainda que às custas do desconforto — é melhor do que enfrentar o frio. Mas será mesmo?

Humberto Maturana dizia que o amor é a emoção que legitima o outro em sua existência. Gosto de pensar que isso também vale para os vínculos que construímos. Um relacionamento amoroso não deveria exigir que deixemos de existir para acomodar o outro. Não deveria nos fazer escolher entre sermos quem somos ou permanecermos na relação. Talvez um vínculo saudável seja muito parecido com a meia certa. Ela aquece sem apertar. Protege sem machucar. E sua presença quase desaparece, porque o cuidado não pesa. Ele acolhe.

Eu não desisti das meias. Vou comprar outra. Talvez um número maior. Talvez um tecido mais macio. Talvez uma marca diferente. Não porque eu aceite qualquer meia. Mas porque continuo achando que meus pés merecem calor — desde que esse calor não custe o meu conforto. E talvez seja assim também com alguns vínculos. O problema nunca foram as meias. Era acreditar que, por causa de uma que machucou, eu precisaria escolher entre duas únicas possibilidades: viver para sempre com os pés gelados ou aceitar qualquer aperto em nome do calor.

A vida, felizmente, costuma oferecer mais possibilidades do que aquelas que a dor nos deixa enxergar.

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Sobre a autora

PATRÍCIA CALDEIRA

Há quem veja a psicologia como uma escolha de mercado. Para mim, ela sempre foi uma escolha de afeto. No final dos anos 90, quando decidi trilhar este caminho, fui movida por um chamado profundamente pessoal e afetivo.

O tempo passou, os anos de estudo se acumularam, mas aquela mesma paixão inicial permaneceu intacta — e se tornou o alicerce de tudo o que construí até aqui.

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