Resenha de Quinta

Invejosa: o espelho cru das nossas contradições e a potência do amor real

Para estrear o nosso espaço de resenhas com o pé direito (ou com o olhar afiado), precisei falar sobre uma produção argentina da Netflix que me deixou com sentimentos profundamente…

Para estrear o nosso espaço de resenhas com o pé direito (ou com o olhar afiado), precisei falar sobre uma produção argentina da Netflix que me deixou com sentimentos profundamente ambíguos: Invejosa (Envidiosa). Protagonizada pela fantástica Griselda Siciliani no papel de Vicky, uma mulher na casa dos 40 anos, a série me despertou uma sensação agridoce. Teve momentos em que minha vontade era de acolher a personagem, e em outros, confesso, o incômodo bateu forte.

E quer saber? Isso é maravilhoso. Vicky é o retrato de algo que raramente vemos na TV: uma personagem em profunda contradição, mas que não se envergonha de sua própria crueza. Sabe aquelas máscaras sociais que nos esforçamos tanto para usar — de “mulher bem-resolvida”, “independente”, que nunca assume a carência? Vicky simplesmente não tem essas máscaras. Ela é exposta, visceral, contraditória e, muitas vezes, dolorosamente perversa consigo mesma.

O que me fascinou como psicóloga foi acompanhar o doloroso processo de diferenciação do self da protagonista. No começo, a narrativa de vida da Vicky é totalmente terceirizada: ela comprou o pacote pronto do que a sociedade dita como “mulher bem-sucedida”. Para ela, o sucesso está irremediavelmente atrelado a casar, ter filhos e exibir um padrão. Ela vive tanto para o externo que é incapaz de olhar para si mesma, ignorando suas reais necessidades e, principalmente, suas potências.

E aí entra um dos meus recortes favoritos da série: a terapia. Vicky começa a se consultar com Fernanda (interpretada brilhantemente por Lorena Vega), uma psicóloga extremamente diretiva. Fernanda não passa a mão na cabeça. Toda vez que Vicky tenta “ensaboar”, fugindo da própria responsabilidade e justificando seus absurdos através do contexto social, a terapeuta a tensiona de volta para a realidade.

Mas o processo terapêutico não é uma linha reta, né? Em uma virada genial da narrativa, a Vicky faz algo que vemos muito no consultório: ela se agarra a uma narrativa saturada de problemas. Ela pega o fantasma do abandono paterno (a dor de não ter sido “escolhida” pelo pai) e transforma isso na justificativa universal para todas as suas disfuncionalidades. Sua carência nas redes sociais e a inveja cortante que sente das mulheres ao seu redor passam a ser culpa do passado. Ela sai de um movimento 100% voltado para o externo e vai para um egocentrismo cego, o que também é disfuncional.

[CUIDADO, SPOILER À FRENTE!]

O ponto de virada definitivo acontece quando a corda estica. Vicky chega a abandonar a terapia porque sente que Fernanda, assim como o resto do mundo, não a está “escolhendo”. E foi impossível não sentir uma forte ressonância com a minha própria postura profissional em uma das cenas mais tocantes da série. Diante das defesas de Vicky, que questiona se a terapeuta realmente se importa ou se existe amor ali, Fernanda deixa de lado o distanciamento frio e responde com o coração: “Me importo. Me importo muito. Existe amor”. Esse momento é um acalento; mostra que a técnica e o afeto caminham juntos.

É a partir desse vínculo real que a série dá o seu maior salto em direção ao que eu sempre defendo nas minhas aulas e publicações: o amor biológico de Humberto Maturana. Vicky finalmente começa a se conectar com as pessoas a partir do que elas genuinamente oferecem, e não da idealização.

Ela reconhece o amor das amigas maravilhosas que a cercam. Aprende a olhar para a própria mãe sem a lente da maternidade romantizada, aceitando os limites daquela mulher real. Entende que o seu relacionamento amoroso é lindo justamente pelo que ele é na realidade, e não pelo roteiro comercial que ela havia planejado. Quando a idealização cai, o amor genuíno e o autoamor florescem.

A cena em que a psicóloga propõe começarmos a espaçar as sessões coroa essa jornada. O antigo medo de abandono da Vicky resvala na pergunta: “Você está me abandonando ou é porque eu não preciso mais?”. A resposta silenciosa e firme da terapia é a maior libertação de todas: ela não está sendo desamparada; ela está, finalmente, recebendo as rédeas para ser a única dona, autora e protagonista da sua própria vida.

Invejosa não tenta diagnosticar ninguém. A série é, na verdade, um convite brilhante para aceitarmos as nossas próprias dicotomias e entendermos que crescer dói, desidealizar liberta, mas só o amor real cura.

Se você já assistiu, me conta: a Vicky te despertou o que? Vamos resenhar nos comentários!

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Sobre a autora

PATRÍCIA CALDEIRA

Há quem veja a psicologia como uma escolha de mercado. Para mim, ela sempre foi uma escolha de afeto. No final dos anos 90, quando decidi trilhar este caminho, fui movida por um chamado profundamente pessoal e afetivo.

O tempo passou, os anos de estudo se acumularam, mas aquela mesma paixão inicial permaneceu intacta — e se tornou o alicerce de tudo o que construí até aqui.

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