Se você acompanhou a resenha da semana passada, sabe que eu fui completamente capturada por uma novidade da Netflix e mudei os planos na última hora (se não viu, corre lá para ler depois!). Mas o filme de hoje já estava me rondando. Eu ando muito emotiva nesses dias e precisei resgatar uma obra que não é recente, mas que tem o poder de nos fazer olhar para a vida com outros olhos.
Estou falando de Questão de Tempo (About Time), uma produção britânica de 2013 que eu já assisti, sem exagero, umas cinco vezes. E antes de entrar na psicologia da coisa, preciso fazer uma confissão muito íntima, correndo o risco de parecer “um hetero top” com um manual pra fisgar a presa: durante muito tempo, todas as vezes que uma pessoa nova entrava na minha vida no lugar de um romance ou uma paixonite, eu assistia a esse filme com ela. O site é o nosso espaço de intimidade, então me sinto segura para entregar esse meu lado romântico questionável por aqui.
Como o nome deste quadro bem diz, esta é uma resenha de quinta. E, embora o meu ponto de partida seja técnico — sob a lente da Psicologia Sistêmica —, quem escreve aqui é a Pati pessoa física, com a minha própria história e meus afetos. Por isso, sinta-se muito à vontade para ter as suas próprias percepções sobre a obra. Vou adorar saber sua versão, inclusive.
O filme me toca antes mesmo do primeiro frame porque tenho uma tatuagem que diz: “O tempo é um presente”. E, longe de ser um clichê romântico, a nossa conexão com o tempo é um indicador técnico crucial para a saúde mental. Estudos e a prática clínica evidenciam que a desconexão cronológica abala profundamente o psiquismo: quanto mais o indivíduo se prende e se apega a questões do passado, mais o humor tende a deprimir; por outro lado, quanto mais a mente se fixa no futuro, maior é a probabilidade de desenvolvimento de crises de ansiedade. Sendo assim, o tempo organiza a maneira como nos conectamos com tudo. Mas voltemos ao filme.
Na trama, acompanhamos o jovem Tim (Domhnall Gleeson), que ao completar 21 anos descobre pelo pai (Bill Nighy, que é um dos meus atores favoritos da vida) um segredo transgeracional: todos os homens da sua linhagem têm a capacidade de viajar no tempo. Para isso, basta entrarem em um lugar escuro e fechado — um armário ou uma dispensa —, fechar os punhos e mentalizar o momento para onde querem voltar.
No início da vida adulta, Tim opera com um self indiferenciado. Ele utiliza essa herança e esse recurso geracional como a única ferramenta possível para tentar buscar a felicidade e o controle. Dentro da perspectiva de Murray Bowen, o protagonista está totalmente imerso no que chamamos de processo de proximidade familiar: a sua identidade e as suas ações estão inteiramente vinculadas àquilo que o seu sistema familiar lhe deu. Ele cria um pseudo-self — uma personalidade artificial voltada para dar conta de uma demanda de perfeição, usando o poder para corrigir piadas ruins e evitar passos em falso para conquistar Mary (Rachel McAdams).
A grande virada de chave do filme — e o que torna a obra tão brilhante e sensível — é o processo de diferenciação do self do Tim. À medida que ele se depara com o erro, com o luto e com o imprevisível, ele começa a despertar. Ele percebe que os roteiros rígidos e o controle absoluto o afastam do relacionamento real com a Mary.
Tim começa, então, a compreender o verdadeiro amadurecimento sistêmico: discernir entre as referências que ele recebeu da família e que fazem sentido levar para a vida, e aquelas que simplesmente não cabem mais em sua própria história. Diferenciar-se não é romper, mas conseguir construir os seus próprios passos com e a partir da sua história familiar.
Para fazer essas viagens no tempo, Tim precisa estar em um armário escuro, um lugar seguro onde ninguém o veja. Essa metáfora é belíssima para o cuidado que precisamos ter ao acessar nossas memórias. O passado e o futuro são ótimos lugares para se fazer visitas, mas eles jamais devem ser o seu lugar de estadia. Seu lugar de estadia é o aqui-agora, onde você realmente tem recursos para agir.
Eu não vou dar spoilers, porque o que estou fazendo aqui é quase uma prescrição clínica: você precisa assistir a esse filme. Além do romance, ele retrata a paternidade mais saudável, funcional e amorosa que já vi no cinema. As cenas de Tim voltando no tempo para caminhar na praia ou jogar pingue-pongue com o pai nos ensinam que revisitar o passado para nutrir a saudade é válido, desde que a gente tome fôlego e retorne para o presente.
É no presente que se constrói um futuro do qual você vai se orgulhar quando ele virar passado. Questão de Tempo é sobre o autoamor que se organiza com o relógio.
Assista. Confie em mim. Você vai mudar a maneira como olha para si mesma e para os seus dias.