Com amor, Psi

Escuta Psicológica e a polêmica da psicoterapia

A discussão atual sobre quem está autorizado a fazer psicoterapia não é uma tentativa de aprisionamento científico ou uma mera limitação de nicho corporativo. A defesa da exclusividade da nossa…

A discussão atual sobre quem está autorizado a fazer psicoterapia não é uma tentativa de aprisionamento científico ou uma mera limitação de nicho corporativo. A defesa da exclusividade da nossa prática surge para garantir que a escuta clínica seja efetivamente terapêutica no seu sentido mais amplo e profundo. Afinal, oferecer uma escuta acolhedora não é privilégio dos profissionais de psicologia — um amigo, um familiar ou outro profissional de saúde podem perfeitamente acolher. Mas oferecer uma ESCUTA PSICOLÓGICA é, sim, exclusividade nossa.

Isso acontece porque a escuta psicológica precisa respeitar princípios técnicos, éticos e, fundamentalmente, sistêmicos. E aqui eu não me refiro apenas à abordagem da psicologia sistêmica, mas ao olhar e à postura do cientista sistêmico. Por isso, Psi, independentemente de qual seja a sua linha de trabalho, é vital conectar-se com o tripé do pensamento sistêmico: a complexidade, a instabilidade e a intersubjetividade. É esse tripé que sustenta o nosso fazer.

Uma escuta psicológica baseada na complexidade vai na contramão da lógica simplista e reducionista que tenta definir, categorizar ou enclausurar o sujeito dentro de um diagnóstico ou de uma caixinha estática. A complexidade opera na lógica do “E-E”, e não do “ou/ou”. Na nossa poltrona, escutamos um sujeito que tem sintomas e tem potências; que carrega lacunas etransborda forças. Toda essa teia multifacetada faz parte do nosso campo de audição.

Para além de ampliar a nossa percepção através da complexidade, a nossa prática é regida pela instabilidade. A psicologia é a ciência da transformação, e a nossa principal ferramenta de promoção de saúde é a MUDANÇA. Sendo assim, a escuta psicológica jamais poderá ser estática; ela é essencialmente dinâmica. Precisamos estar atentos, o tempo inteiro, a como aquela pessoa foi se organizando e se formando ao longo do tempo, compreendendo esse self narrativo que flutua, se modifica ao longo da vida e que ainda guarda infinitas possibilidades de reorganização.

E, para fechar, a escuta psicológica exige a intersubjetividade. Nós precisamos nos colocar como parte viva desse processo. Quem escuta no setting terapêutico pulsa, tem história, tem marcas. O cliente não está falando para uma parede, para uma almofada ou para um gravador de inteligência artificial (falei sobre isso no post da semana passada, inclusive). Ele fala para alguém que ressoa. Alguém que acolhe com profundidade, mas que também entra em colisão e tensiona quando o processo exige. É uma escuta em dupla, um sistema estritamente colaborativo.

A psicoterapia usa como seu recurso principal essa escuta psicológica estruturada nesses três princípios. Se depois de compreender a fundo a complexidade, a instabilidade e a intersubjetividade que operam no consultório, alguém ainda não entendeu por que a nossa escuta é radicalmente diferente do desabafo com um amigo ou do atendimento de qualquer outro profissional, eu já não sei mais o que posso fazer.

Espero, de verdade, que este texto te toque minimamente para que você compreenda: as outras escutas ao longo da vida são importantes, são válidas e acolhedoras. Mas elas não são psicológicas. Valorize e dignifique a sua cadeira, Psi.

Com amor,

Psi.

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Sobre a autora

PATRÍCIA CALDEIRA

Há quem veja a psicologia como uma escolha de mercado. Para mim, ela sempre foi uma escolha de afeto. No final dos anos 90, quando decidi trilhar este caminho, fui movida por um chamado profundamente pessoal e afetivo.

O tempo passou, os anos de estudo se acumularam, mas aquela mesma paixão inicial permaneceu intacta — e se tornou o alicerce de tudo o que construí até aqui.

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