O delírio de hoje está daquele jeito: bem fora da caixinha(ou da casinha rsrs), cru e sem filtros. Eu tenho muitas velas na minha casa. Uso por uma questão de fé, para harmonizar o ambiente depois de uma semana intensa ou simplesmente para deixar os cômodos mais cheirosos. Mas, agora há pouco, parei para observar uma dessas velas queimar e um pensamento incômodo (quase intrusivo) me atravessou: quantas pessoas só conseguem se sentir vivas e reais enquanto estão se desfazendo, se machucando ou se cortando emocionalmente?
Se a gente parar para analisar friamente, a existência da vela é isso. Ela só cumpre a sua função, ela só permanece acesa enquanto está se perdendo, se derretendo e se destruindo literalmente. Se você apaga a vela, você a mantém intacta, mas a luz se apaga.
“Tá, Patrícia, mas o que é que isso tem a ver com a psicologia e amor?”. Tudo.
Fiquei pensando nos contextos de dependência emocional, nas pessoas aprisionadas em relacionamentos abusivos e dinâmicas destrutivas. Lugares que machucam profundamente, mas onde o sujeito só consegue registrar a própria existência e o próprio valor enquanto está sendo ferido. Na minha vida pessoal e, principalmente, na minha jornada clínica, eu cansei de ouvir depoimentos como: “Ah, Pati, mas esse relacionamento novo está muito morno… Não tem briga, não tem debate, não tem crise, ele é calmo demais. Acho que tem alguma coisa errada”.
Aqui eu preciso abrir um parêntese clínico importante: debates, discussões e divergências são esperados e até funcionais; eles mostram que a relação está viva e que existem dois indivíduos engajados ali. Mas isso não tem absolutamente nada a ver com violência. Permanecer em um espaço onde você é violentada e agredido (verbal, psicológica ou fisicamente) diz muito sobre a ideia distorcida que você construiu sobre o amor.
Eu costumo usar uma frase que causa um verdadeiro caos em sala de aula e no setting terapêutico: quando algo depende exclusivamente de você, não existe o “eu não consigo”, existe o “eu não quero”.
E, muitas vezes, você não quer sair dessas relações porque simplesmente não sabe como se perceber ou como existir fora desse cenário de caos. É como se a sua ideia de amor estivesse atrelada ao autodesamor, entende? Há um ganho secundário ali. No caso da vela, ela aceita derreter porque quer se manter iluminada. É doloroso abrir mão dessa luz, mesmo que ela te queime. No caso de uma vela perfumada, o aroma só vai exalar no ambiente se ela estiver morrendo. Existe uma romantização cultural muito forte e quase poética em cima desse sacrifício. Mas a que custo?
O que te custa mais? O que te ganha mais? O que faz você se sentir viva de verdade: estar iluminado a qualquer preço ou estar intacta? O seu critério de vida é ser útil iluminando e salvando a vida de alguém enquanto você desaparece?
Não espere de mim uma linearidade de pensamento aqui, afinal, isso é um delírio. Mas a provocação sobre o que chamamos de “vínculos tóxicos” precisa ser feita. E eu coloco “vínculos” entre aspas de propósito, porque a verdade é que não existe vínculo tóxico. TODO VÍNCULO LEGÍTIMO NASCE DE UM LUGAR DE AFETO. A toxicidade, por sua vez, opera no registro da dominância. Não há vínculo em relações de poder. Onde impera o controle, o afeto já foi aniquilado; só sobrou o poder.
Olhe ao seu redor hoje. Pense comigo um pouco sobre as velas. Será que você está vivendo o seu “momento vela”? Quantas velas você conhece por aí que estão se extinguindo para iluminar a sala de outra pessoa?
Vamos delirar juntos? Eu avisei que hoje eu ia pegar pesado.
Boa segunda-feira.
Respostas de 2
Texto brilhante, que me levar a responder que sim, já fui vela, para os outros, atualmente eu me ilumino e sabe qual a vantagem? Eu consigo me ver melhor a cada dia, ne orgulho de ter consciência dos meus defeitos e qualidades, a delícia do Autoconhecimento é se blindar de opiniões depreciativa, pois se alguém aponta algo que você já sabe e aprendeu a lidar, o mal da depreciação não te atinge. 😉
Que delicia saber que vc esta nesse momento. Que esse autoamor continue te iluminando!!!Obrigada por compartilhar uma parte de sua historia aqui.