Delírios de Segunda

Relação tipo Banheiro

E chegamos a mais uma segunda-feira delirante por aqui. Seguimos na nossa saga de olhar para os relacionamentos a partir dos cômodos da nossa casa — e hoje chegamos ao…

E chegamos a mais uma segunda-feira delirante por aqui. Seguimos na nossa saga de olhar para os relacionamentos a partir dos cômodos da nossa casa — e hoje chegamos ao banheiro.

Imagino que você possa estar pensando: “A Pati surtou de vez, o delírio alcançou outro patamar!”. Mas calma. Fique comigo e segure na minha mão, porque tem algo muito potente para resgatarmos daqui.

O banheiro é, por excelência, o espaço mais individual do lar. Mesmo em casas com duas pias, duas duchas ou vasos reservados, a regra desse ambiente é a reserva. É ali que realizamos nossos rituais mais íntimos e, sob uma perspectiva analítica, é onde encaramos o despojo e a limpeza do nosso próprio corpo: lavamos o rosto, escovamos os dentes, tomamos banho e expelimos nossas necessidades fisiológicas. É o lugar onde limpamos o que sobrou e onde exigimos um espaço inviolável de privacidade. E é curioso pensar que nós aprendemos muito cedo que algumas dessas coisas precisam ser feitas sozinhas, que determinadas partes do nosso corpo e da nossa rotina precisam permanecer protegidas do olhar do outro. Aprendemos que fechar a porta do banheiro é um gesto de privacidade, e isso é importante. Mas será que, em algum momento, aprendemos também que intimidade significa necessariamente invasão?

Mas como essa dinâmica se traduz para a arquitetura de um relacionamento?

O “relacionamento tipo banheiro” fala sobre aquelas relações em que a conexão se esvazia porque as pessoas vivem vidas quase completamente paralelas. São vínculos marcados pelo excesso de segredos e por uma intimidade a dois praticamente inexistente. É aquela dinâmica em que um dos parceiros — ou ambos — sente uma necessidade visceral de estar sempre sozinho, de se divertir longe do outro e de manter rituais estritamente individualizados, enfrentando uma enorme dificuldade de integrar o parceiro em sua rotina, seus sentimentos ou seu círculo social. E talvez seja importante pensar que nem sempre essa necessidade de distância nasce simplesmente de uma escolha consciente. Às vezes, aprendemos em outras relações que deixar o outro se aproximar demais significa perder espaço, ser controlado, ser invadido, ser criticado ou até mesmo sentir vergonha. Talvez uma experiência anterior tenha ensinado que escovar os dentes na frente de alguém é constrangedor, que mostrar o nosso corpo é ameaçador, que compartilhar pequenas coisas da rotina significa abrir mão de quem somos. E aí, quando encontramos alguém novo, podemos continuar mantendo a porta fechada mesmo quando ninguém está tentando arrombá-la.

A individualidade dentro de um relacionamento é fundamental e precisa ser preservada. O problema surge quando a individualidade se transforma em individualismo rígido e se torna a única forma possível de estar junto. Afinal, o que sobra para co-construir quando a maior parte da vida é vivida para dentro de si? O relacionamento “tipo banheiro” acaba sendo uma relação que quase não é relação, pois prioriza a preservação da própria bolha em detrimento da partilha. E talvez aqui exista uma diferença importante: preservar a sua individualidade não significa necessariamente manter todas as portas fechadas. Às vezes, uma coisa que foi vivida como invasão em outro relacionamento pode, em uma relação segura, ganhar outro significado. Escovar os dentes lado a lado pode continuar sendo apenas escovar os dentes, mas também pode ser um daqueles pequenos momentos de vínculo que não exigem nenhuma grande declaração de amor. É deixar o outro conhecer um pedaço banal da sua rotina sem que isso signifique perder a sua autonomia. É permitir que aquilo que antes parecia exclusivamente seu possa, se você quiser, também ser compartilhado.

Momentos a sós renovam o ar, mas sustentar uma vida a dois pautada apenas no isolamento é adoecedor. E talvez o problema não seja ter uma porta no banheiro; talvez seja acreditar que ela precisa estar sempre trancada. Não existe uma única explicação para a necessidade de preservar esse espaço: pode ser uma necessidade legítima de privacidade, um modo de funcionamento aprendido, uma característica da própria pessoa ou, sim, uma defesa construída a partir de experiências relacionais anteriores. O que importa é poder se perguntar quando a privacidade deixa de ser uma escolha e passa a ser uma regra. Por isso, deixo a provocação para o seu delírio de hoje: o que é que te impede de compartilhar parte da sua vida com a pessoa que você escolheu? O que parece tão ameaçador ou violento na ideia de abrir a porta da sua intimidade e construir algo em comum?

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Sobre a autora

PATRÍCIA CALDEIRA

Há quem veja a psicologia como uma escolha de mercado. Para mim, ela sempre foi uma escolha de afeto. No final dos anos 90, quando decidi trilhar este caminho, fui movida por um chamado profundamente pessoal e afetivo.

O tempo passou, os anos de estudo se acumularam, mas aquela mesma paixão inicial permaneceu intacta — e se tornou o alicerce de tudo o que construí até aqui.

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