Com amor, Psi

As três éticas

O tema desta semana traz como reflexão um dos maiores sinônimos da palavra amor — uma palavra que a gente ama falar por aqui. Hoje nós vamos conversar sobre ética….

O tema desta semana traz como reflexão um dos maiores sinônimos da palavra amor — uma palavra que a gente ama falar por aqui. Hoje nós vamos conversar sobre ética.

Muitos pensam que ética tem a ver com leis, regras engessadas ou determinações que vêm de fora para dentro. Mas isso está muito mais próximo da moral. Quem já esteve em sala de aula comigo sabe o quanto eu gosto de diferenciar essas duas coisas: enquanto os valores morais costumam vir do externo e carregam uma sensação de obrigatoriedade, a ética nasce, necessariamente, de um processo de reflexão sobre como queremos viver e agir.

E essa é uma discussão antiga. Na Filosofia, a ética é justamente o campo que se ocupa de perguntas como: como devemos viver? O que torna uma vida boa? Como devemos agir diante do outro? Aristóteles, em sua Ética a Nicômaco, coloca no centro dessa reflexão a ideia de eudaimonia, frequentemente traduzida como felicidade ou vida boa. Mas não se trata simplesmente de sentir-se bem ou fazer aquilo que desejamos. É a ideia de uma vida que floresce a partir da maneira como escolhemos viver e agir, através da prática das virtudes.

Séculos depois, Paul Ricoeur retoma essa pergunta de uma maneira que me interessa ainda mais quando penso na Psicologia: a busca pela “vida boa, com e para os outros, em instituições justas”. Porque talvez não exista vida boa quando ela é construída ignorando a existência do outro.

E o que tudo isso tem a ver com amor? Tem tudo a ver. A ética tem a ver com cuidado. Com a capacidade de olhar para o outro em sua complexidade, reconhecendo suas singularidades, suas vicissitudes, seus limites e também sua liberdade. Ética não é apenas saber o que é permitido ou proibido. É refletir sobre aquilo que fazemos e sobre os efeitos que nossas escolhas produzem nas relações que estabelecemos. É por isso que eu gosto tanto de pensar ética como cuidado afetuoso e responsável.

E é justamente aqui que a Psicologia entra nessa conversa. O post de hoje é para você — seja estudante, profissional ou alguém que utiliza os serviços de Psicologia — pensar comigo sobre uma ideia que tenho chamado de três éticas que atravessam o exercício da Psicologia.

A primeira é a ética da profissão. É o campo mais amplo, aquilo que diz respeito à Psicologia enquanto ciência e profissão e que estabelece os fundamentos que precisam orientar o nosso exercício, independentemente da abordagem que escolhemos. O Código de Ética Profissional e as resoluções que regulamentam a nossa prática funcionam como um norte. Eles colocam em evidência os pontos de tensão da profissão, estabelecem princípios fundamentais e delimitam aquilo que não pode ser ultrapassado em nome de nenhuma escolha teórica ou pessoal. Não são um manual para nos dizer exatamente o que fazer em cada situação. E talvez seja justamente por isso que ética não possa ser reduzida a decorar o Código. Ela exige reflexão.

A segunda é a ética da abordagem. A Psicologia é uma ciência plural. Diferentes abordagens partem de diferentes pressupostos sobre o ser humano, sobre o sofrimento, sobre as relações e sobre aquilo que pode favorecer uma transformação. E isso significa que profissionais diferentes podem utilizar ferramentas diferentes e traçar caminhos diferentes para alcançar objetivos semelhantes. Não é apenas uma questão de técnica. A abordagem oferece uma lente para compreender o fenômeno e, a partir dela, organiza escolhas: o que observar, o que perguntar, quais intervenções fazer, quais recursos utilizar e até o que será compreendido como uma mudança significativa naquele processo.

Por isso, uma mesma situação pode produzir decisões diferentes entre profissionais de abordagens distintas — e isso, por si só, não significa que uma delas esteja necessariamente errada. Mas também não significa que tudo esteja permitido. Por exemplo: um psicólogo pode ir à festa de aniversário de uma pessoa que atende?

O Código de Ética nos dá um princípio bastante claro. O Art. 2º, alínea j, estabelece que é vedado ao psicólogo “estabelecer com a pessoa atendida, familiar ou terceiro, que tenha vínculo com o atendido, relação que possa interferir negativamente nos objetivos do serviço prestado.”

A partir daí, a abordagem pode oferecer diferentes elementos para compreender aquela situação e seus possíveis efeitos sobre o processo terapêutico. Uma abordagem psicodinâmica, por exemplo, pode dar especial atenção às implicações transferenciais e contratransferenciais de uma relação fora do espaço terapêutico. Na perspectiva sistêmica, por outro lado, o terapeuta é compreendido como parte do sistema relacional e também como alguém que é afetado pelos encontros que estabelece. Em determinados contextos, uma experiência compartilhada fora do setting tradicional pode favorecer uma ressonância capaz de ampliar a compreensão do sistema e abrir novas possibilidades de intervenção. O encontro com outras dimensões da vida daquela pessoa pode produzir informações e experiências relacionais que não necessariamente apareceriam no consultório.

Isso não significa que, na sistêmica, qualquer aproximação extraclínica seja desejável ou que o limite deixe de existir. Pelo contrário: é justamente a reflexão ética que permite perguntar quando essa aproximação pode ser terapeuticamente significativa e quando ela pode interferir negativamente no processo. A cena é a mesma. A leitura pode não ser. E é justamente aí que a ética da profissão e a ética da abordagem precisam conversar: a abordagem oferece o caminho, mas não pode ultrapassar os fundamentos que sustentam a profissão.

E então chegamos à terceira: a ética do profissional. Talvez essa seja a camada mais profunda, porque diz respeito à maneira singular como cada psicólogo encarna a própria profissão. Ela envolve os significados que esse profissional atribui à Psicologia e à sua prática, os valores que orientam suas escolhas, mas também suas potencialidades, seus limites e suas habilidades. Aquilo que ele sabe fazer, aquilo que ainda precisa desenvolver, aquilo que reconhece não saber e até onde consegue ir sem colocar o outro em risco.

Porque dois psicólogos podem compartilhar a mesma profissão e a mesma abordagem e, ainda assim, construir práticas muito diferentes. E essa pessoa também precisa ser capaz de se perguntar: quem sou eu dentro dessa relação? O que consigo sustentar? Quais são os meus limites? Que lugar atribuo ao outro? E que Psicologia estou ajudando a construir através da maneira como exerço a minha prática?

Pensando melhor nisso com vocês — e como este é um post aberto, eu posso super mudar de ideia no meio do caminho —, eu tinha pensado inicialmente em dizer que essas três éticas são complementares. Mas não é só isso. Acho que elas são também níveis de aprofundamento. Partimos de um campo maior, o da profissão e seus princípios. Mergulhamos na especificidade da abordagem, que oferece as lentes, as ferramentas e os caminhos possíveis. E chegamos ao nível mais singular: a ética do próprio profissional, que organiza sua maneira de estar e agir nessa relação.

Só que existe uma coisa que atravessa todas elas: nenhuma escolha de abordagem, nenhuma característica pessoal e nenhum entendimento particular sobre a Psicologia pode justificar aquilo que fere os princípios fundamentais da profissão. A pluralidade é parte da Psicologia. A diferença entre profissionais também. E talvez uma das coisas mais importantes para quem utiliza os nossos serviços seja justamente compreender isso: um cuidado ético não precisa ter sempre a mesma forma. Profissionais diferentes podem pensar, trabalhar e construir caminhos diferentes — e isso não significa, necessariamente, que exista um problema.

O problema começa quando, em nome dessa diferença, os limites fundamentais são ultrapassados. Porque, no fim das contas, talvez seja isso que a ética nos convide a fazer: não apenas perguntar “eu posso?”, mas sustentar a pergunta mais difícil — “o que estou fazendo com o outro, e por quê?”

A Psicologia é uma ciência do cuidado. E, para permanecer nesse lugar, talvez precisemos compreender que ética não é uma lista de proibições. É uma prática cotidiana de reflexão, responsabilidade e cuidado.

E você, já tinha parado para pensar nessas três éticas que atravessam o cuidar?

Com amor,

Psi.

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Sobre a autora

PATRÍCIA CALDEIRA

Há quem veja a psicologia como uma escolha de mercado. Para mim, ela sempre foi uma escolha de afeto. No final dos anos 90, quando decidi trilhar este caminho, fui movida por um chamado profundamente pessoal e afetivo.

O tempo passou, os anos de estudo se acumularam, mas aquela mesma paixão inicial permaneceu intacta — e se tornou o alicerce de tudo o que construí até aqui.

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