Mais uma Resenha de Quinta chegando quentinha. E, mais uma vez, eu quero te convidar a assistir a um filme sem necessariamente focar tanto no que a sinopse te convida a enxergar. Na verdade, você tem a liberdade de aceitar o convite da sinopse ou aceitar o meu. Mas eu acho que o meu é muito mais interessante.
O filme de hoje é Adeus, June (Goodbye June), lançado em 2025, dirigido por Kate Winslet, em sua estreia na direção, e disponível na Netflix. A sinopse traz o luto como parte central da história: uma família precisa lidar com o agravamento do estado de saúde de June e com tudo o que essa situação desperta entre seus filhos adultos. Mas a minha proposta é que a gente vá para além do luto. Que a gente pense em outras coisas.
E eu vou criar um cenário na sua cabeça. Imagine uma família em que um depende do outro. Um depende do comportamento do outro — às vezes até daquele comportamento “defeituoso”, e o meu defeituoso vem entre aspas — para conseguir se manter dentro do seu próprio lugar, dentro daquela família. Parece familiar? Pois é. Esse filme traz uma ideia que me encantou: todos parecem satisfeitos dentro da sua própria insatisfação uns com os outros.
Você tem, primeiro, um subsistema fraternal muito bem organizado. Organizado também entre aspas. Temos uma irmã mais velha, muito bem-sucedida profissionalmente, que sustenta essa família a partir de um lugar de distância e, ao mesmo tempo, de crítica. Ela mantém uma relação quase de superioridade com os irmãos. Temos outra irmã, mãe e dona de casa em tempo integral, que, de alguma maneira, copia a própria mãe e se coloca nesse lugar de sucessora. E, justamente por ocupar esse lugar, critica quem não se comporta de maneira semelhante.
Depois, temos aquela irmã considerada a maluquinha da família. A que parece impossível de alcançar em conversas mais profundas, que se mantém distante de toda aquela realidade caótica que a família propõe. E, por último, temos o único homem entre os irmãos: afetuoso, sensível, extremamente vulnerável e, talvez por isso mesmo, ocupando um lugar muito diferente dentro daquele sistema.
Percebe? Para que uma irmã se mantenha naquele lugar de bem-sucedida, existe outra que precisa ter se anulado profissionalmente para dar conta da maternidade e da conjugalidade. Esta, por sua vez, precisa daquela outra irmã considerada “maluca”, que não cria vínculos e parece distante de tudo. E todos eles, de alguma maneira, precisam daquele irmão tão vulnerável, tão carente, para que esses lugares continuem existindo.
Eu não vou te dar os nomes desses personagens de propósito. Quero que, ao assistir ao filme, você encontre cada um deles para além do nome. Quero que você reconheça os lugares, os papéis, os comportamentos. Talvez você reconheça alguém que conhece. Talvez, em algum deles, reconheça até você mesma.
É quase como se cada comportamento alimentasse o comportamento do outro. E aí saímos do subsistema fraternal e vamos para o conjugal. Temos uma mulher forte, resiliente, organizada, afetuosa. E um marido apático, distante, quase um pateta. E, mais uma vez, um retroalimenta o outro. Como se, para ela ocupar o lugar de poderosa, ele precisasse ocupar o lugar de impotente.
É justamente aí que a gente começa a perceber a homeostase dessa família. E homeostase não significa que está tudo bem. Significa que, de alguma maneira, o sistema encontrou uma forma de continuar funcionando. Mesmo que essa forma seja dolorosa. Mesmo que todos estejam machucados dentro das próprias bolhas.
E é isso que mais me interessou em Adeus, June. Não é só sobre luto. É sobre mudança. Sobre o quanto essas pessoas estão estagnadas nos seus próprios papéis e sobre como, muitas vezes, aquilo que chamamos de personalidade pode também ser uma posição que aprendemos a ocupar dentro de um sistema.
E tem uma coisa ainda mais interessante: o que não é dito também participa dessa organização. Porque aquilo que a gente não consegue falar não necessariamente desaparece. Às vezes, continua circulando na relação através dos silêncios, das críticas, dos afastamentos, das alianças e dos comportamentos. Quando aquilo que vinha sendo vivido em silêncio finalmente pode ser colocado em palavras, alguma coisa começa a mudar.
Eu não vou dar muito spoiler, porque vocês sabem que eu tento preservar a experiência de quem ainda não assistiu. Mas posso dizer que essa família tem a possibilidade de sair dessa homeostase e entrar em um processo bonito, doloroso e surpreendente de morfogênese. Não é uma família que simplesmente volta a ser o que era. É uma família que pode começar a se reorganizar.
E talvez seja justamente isso que mais tenha me emocionado: não existe nenhum personagem superficial nessa história. Todos são profundamente humanos, contraditórios, complexos e visceralmente marcados pelos lugares que aprenderam a ocupar dentro de suas relações.
Por isso, meu convite é que você assista ao filme por essa lente. Observe como os comportamentos de um retroalimentam os comportamentos do outro e, quem sabe, aproveite para olhar também para os seus próprios sistemas. Que lugares você ocupa? E o que as relações ao seu redor ajudam a manter em você?
Talvez a comunicação não salve uma família. Talvez ela apenas possibilite que aquilo que vinha sendo repetido em silêncio possa finalmente ser dito — e que, a partir daí, novas formas de existir juntos possam ser construídas.
Adeus, June é, para mim, muito mais do que uma história sobre luto. É sobre mudança. Sobre deixar de repetir para poder se reorganizar.
E agora eu quero saber o que você enxergou. Me conta nos comentários.