Resenha de Quinta

“A Million Little Things”: o que sobra depois que o mundo desaba?

Falar sobre a obra de hoje é, antes de tudo, entrar em contato com emoções muito profundas. Eu preciso começar esta resenha confessando que esta é a minha segunda série…

Falar sobre a obra de hoje é, antes de tudo, entrar em contato com emoções muito profundas. Eu preciso começar esta resenha confessando que esta é a minha segunda série favorita da vida. Ela só perde para This Is Us — mas a verdade é que eu ainda não estou psicologicamente pronta para escrever uma resenha completa sobre essa primeira colocada. E para quem me conhece e está se perguntando sobre FRIENDS, ela não entra na categoria favorita porque está acima de qualquer coisa rsrs. Então, fiquemos com o meu segundo grande amor técnico e pessoal.

Estou falando de A Million Little Things (no Brasil, Um Milhão de Pequenas Coisas), uma produção norte-americana que estreou em 2018 e encerrou sua jornada em 2023, totalizando 5 temporadas densas, sensíveis e arrebatadoras.

Se eu tivesse que resumir a temática dessa série em uma única palavra, ela seria: luto. O tema essencial aqui é a perda. No entanto, o título nos convida a olhar para além do fim, focando justamente no que fica depois que o mundo desaba. Ao longo das temporadas e das tramas que se entrelaçam, somos atravessados por lutos de todas as ordens. A história é disparada por uma morte trágica por suicídio, mas, a partir dali o roteiro nos joga na cara divórcios, traições, transições abruptas de carreira, doenças físicas graves, dores psíquicas e emocionais. São todas as facetas do luto, desde a perda literal de alguém até o sepultamento dos planos que tínhamos para o futuro.

Mas o que é que sobra depois de tudo isso?

É aqui que a série se transforma em poesia e clínica pura. Ela nos mostra que o luto e o amor parecem forças opostas, mas são, na verdade, faces da mesma moeda. Afinal, a dor do luto nada mais é do que o amor que não tem mais para onde ir. E a série nos ensina — em letras garrafais — que SÓ É POSSÍVEL ELABORAR UM LUTO ATRAVÉS DO AMOR. Seja através do resgate do autoamor, seja através da permissão para receber o afeto que o mundo exterior nos oferece.

No epicentro dessas perdas, a série ergue um monumento à AMIZADE. Acompanhamos um grupo de amigos que, à sua maneira, contribui ativamente para a vida uns dos outros, dividindo os pesos, os erros e os acertos. É a materialização perfeita do que Humberto Maturana conceitua como a Biologia do Amor: o aceitar o outro como um legítimo outro na convivência. É o amar apesar de. O amor que não exige perfeição, mas que sustenta a existência do outro simplesmente porque ele existe.

Eu não quero dar spoilers, porque o meu desejo genuíno é que você assista a essa obra-prima. É quase um convite para que você adote essas pessoas e permita que elas façam parte da sua jornada, assim como fizeram da minha.

Para te situar e te fazer se apaixonar antes mesmo do primeiro episódio, eu vou me aventurar a falar rapidamente sobre os personagens que movem esse sistema de afeto e dor. Mas preciso deixar claro: esta é uma resenha de quinta. Portanto, estes são os meus personagens, a minha leitura sobre eles, e não necessariamente o manual rígido que o criador da série, DJ Nash, escreveu. 

Comecemos por Jon (Ron Livingston). Ele é o homem de sucesso que parece ter tudo sob controle, mas que carrega um ar protetor e, simultaneamente, uma fragilidade imensa baseada na insegurança. Por trás dos seus muitos segredos, Jon muitas vezes se afasta e não consegue verbalizar o quanto as pessoas ao seu redor são vitais para ele. Um homem controverso e magnético. Ele é casado com Delilah (Stephanie Szostak), uma mulher incrível que, como é de se esperar de quem divide a vida com alguém cheio de mistérios, também guarda os seus próprios silêncios. Delilah lida com sentimentos não elaborados e uma autoestima machucada por esse distanciamento do marido. Ela tem muitos sonhos, mas não se autoriza a vivê-los. É uma mãe e amiga impecável e dedicada, mas que precisa urgentemente aprender a olhar para si mesma.

Daí, migramos para o núcleo de Regina (Christina Moses) e Rome (Romany Malco). Se eu pudesse escolher uma única palavra para definir esse casal, a palavra seria vida. São dois personagens negros que trazem a pauta da negritude com uma sensibilidade, delicadeza e força impressionantes, passando longe de qualquer estereótipo. Regina é uma fortaleza, uma leoa para defender os seus, mas dona de um olhar absurdamente sensível para o outro e para si mesma — é lindo ver o processo dela se enxergando e se priorizando, sem nunca se esconder atrás do casamento. Já Rome é pura criatividade e generosidade. Sabe aquele amigo que você olha e tem a certeza absoluta de que ele nunca vai embora? Ele está sempre ali. Mas isso tem um custo. Por conta de uma história familiar conturbada, Rome canaliza toda a sua potência para o outro, tendo imensa dificuldade de enxergar a força que habita em si mesmo.

Saindo desse casal solar, tocamos em um núcleo que não é nem um pouco solar: Eddie (David Giuntoli) e Katherine (Grace Park). Eddie é complexo. Um homem muito bonito, que sabe da sua beleza, mas que muitas vezes acredita que se resume a isso. Apesar de ser um pai extremamente dedicado, ele não consegue bancar os seus próprios desejos e sonhos, enfrentando uma severa dependência química. Essa limitação faz com que ele se enclausure e não perceba o quanto pode caminhar — e guardem bem esse verbo, porque ele será doloroso e importante ao longo das temporadas. Ao lado dele está Katherine, uma personagem que me toca profundamente. Uma mulher vista como controladora, mas que, como a maioria das pessoas que tenta controlar tudo, esconde um verdadeiro vendaval de emoções e vulnerabilidades por trás da postura rígida. Quando Katherine finalmente se autoriza a libertar seus sentimentos e sua criatividade, ela se transforma. Que potência de mulher! Uma bravura e uma coragem admiráveis.

E, por último, deixei o meu favorito. E sim, aqui os olhos marejam e a mão treme de verdade: Gary (James Roday Rodriguez). Para mim, ele é o verdadeiro coração da série. Gary é o amigo devoto, o filho maravilhoso e um homem profundamente imperfeito. Ele tem imensa dificuldade de lidar com as próprias dores e usa a ironia e o sarcasmo como escudo — aqui cabe uma menção honrosa ao Chandler Bing, de Friends, porque ambos compartilham esse mesmo mecanismo de defesa de rir da própria fragilidade. Mas, ao longo das temporadas, Gary se permite. É a maior prova clínica de que quando nos autorizamos a ser vulneráveis, nós nos tornamos infinitamente mais fortes. Gary é o amigo, o namorado, o pai e o tio que todo mundo gostaria de ter na vida.

Imagine todas essas pessoas juntas, lidando com os seus respectivos lutos, mas sustentando o amor apesar de. Apesar dos defeitos, da inveja, do medo e da insegurança. Assistir a essa série é um exercício profundo de alteridade: você vai sentir raiva de todos eles em algum momento, vai sentir pena, vai querer abraçá-los e, logo em seguida, vai querer que eles fiquem bem longe de você. 

A Million Little Things nos dá a oportunidade de compreender o real significado do vínculo e da amizade. E como comecei dizendo que esta é uma série sobre o luto, preciso encerrar reiterando: não existe elaboração de luto sem amor. Todas as perdas que esse grupo enfrenta só são superadas porque eles se amam de forma incondicional. 

Eu fiz essa resenha do fundo da minha alma para você. Espero, de coração, que você se sinta convidado a experimentar essas milhões de pequenas coisas. Eu tenho certeza absoluta de que vai valer a pena.

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Sobre a autora

PATRÍCIA CALDEIRA

Há quem veja a psicologia como uma escolha de mercado. Para mim, ela sempre foi uma escolha de afeto. No final dos anos 90, quando decidi trilhar este caminho, fui movida por um chamado profundamente pessoal e afetivo.

O tempo passou, os anos de estudo se acumularam, mas aquela mesma paixão inicial permaneceu intacta — e se tornou o alicerce de tudo o que construí até aqui.

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