A sugestão desta semana é um filme bem recente da Netflix: A Lista da Minha Vida (The Life List, 2025), dirigido por Adam Brooks e baseado no romance homônimo de Lori Nelson Spielman. No elenco, Sofia Carson interpreta Alex Rose, acompanhada por Kyle Allen, Sebastian de Souza e Connie Britton.
Confesso que fui capturada antes mesmo de dar o play.
Sou completamente apaixonada por listas. Desde criança faço listas para tudo: tarefas, objetivos, ideias, livros, lugares que quero conhecer. Minha relação com papel, caneta e listas é quase uma memória afetiva.
Talvez por isso eu tenha imaginado que essa resenha seria sobre listas.
MAS NÃO É.
Também não é sobre realizar sonhos.
Nem sobre luto — embora a morte da mãe da protagonista aconteça logo no início do filme e seja o ponto de partida da história.
Na verdade, essa resenha é sobre algo muito mais silencioso: as narrativas que forjamos sobre nós mesmos.
E, antes que essa palavra cause estranhamento, deixa eu explicar o que quero dizer por “forjar”. Não estou falando de mentir conscientemente para si mesmo ou de inventar acontecimentos que nunca existiram. Estou falando de algo muito mais sutil — e, justamente por isso, muito mais humano.Às vezes, passamos tantos anos olhando para nossa história através da mesma lente que aquela interpretação passa a parecer a única possível.
Na Terapia Narrativa, desenvolvida por Michael White e David Epston, existe um conceito chamado narrativa saturada de problemas. É quando uma determinada história sobre nós mesmos ganha tanta força que começa a organizar a maneira como interpretamos nossas experiências, nossas relações e até quem acreditamos ser. Tudo o que confirma essa narrativa ganha destaque; tudo o que a contradiz vai ficando quase invisível. É exatamente isso que acontece com Alex.
Ao longo do filme, ela sustenta a convicção de que nunca foi suficientemente boa. Acredita que sua mãe nunca confiou verdadeiramente nela e que foi rejeitada pelo pai. Essa história orienta suas escolhas, seus relacionamentos e a maneira como ela ocupa o mundo.
Até que outras vozes começam a aparecer.
Os irmãos compartilham lembranças muito diferentes das suas. Revelam que, enquanto ela se sentia pouco validada pela mãe, eles próprios experimentavam a sensação oposta: a de ficarem à margem de uma relação profundamente próxima entre mãe e filha, cheia de cumplicidades e códigos internos.
Depois, ela descobre que a história construída sobre o pai também não era tão simples quanto acreditava.
E é justamente aí que o filme, na minha leitura, deixa de ser sobre listas e passa a ser sobre identidade.
Na linguagem de Michael White, começam a surgir os chamados resultados excepcionais: acontecimentos, lembranças e experiências que não cabem na narrativa dominante e que, justamente por isso, abrem espaço para que uma nova história possa ser construída. Perceba que os fatos não mudam. O passado não é reescrito. O que muda é a possibilidade de olhar para ele através de outras lentes.
É nesse ponto que A Lista da Minha Vida me surpreendeu. Ele vende uma história sobre uma lista de desejos deixada por uma mãe. Mas entrega uma reflexão muito mais profunda sobre a maneira como organizamos nossa própria identidade.
Talvez amadurecer tenha menos a ver com finalmente encontrar quem somos e mais com permitir que outras versões da nossa história também tenham lugar. Porque, às vezes, passamos tanto tempo tentando confirmar a narrativa que construímos sobre nós mesmos que deixamos de perceber tudo aquilo que sempre esteve ali… mas nunca coube nela.E talvez esse seja o maior convite que esse filme nos faz.
Não o de cumprir uma lista.
Mas o de revisitar, com um pouco mais de delicadeza, a história que temos contado sobre nós mesmos.
Lembrando que esta é uma Resenha de Quinta. Isso significa que esta não é a leitura do filme, mas a minha leitura. E talvez seja justamente essa a beleza das boas histórias: elas nunca dizem exatamente a mesma coisa para todo mundo.
Por fim, espero que você tenha se sentido convidada ou pelo menos curioso a ver esse filme, mas antes de me despedir queria te perguntar: E se o maior obstáculo da sua vida não fosse a história que você viveu, mas a única versão dela que você aprendeu a contar?
Deixei e saí correndo. Boa quinta!!!