Escrevo este texto com o estômago contraído, ciente de que estou tocando em uma ferida aberta da nossa categoria. Mas também convicta de que o silêncio nunca foi ausência de posicionamento. O silêncio também produz efeitos. O silêncio também é uma escolha.
Quero falar sobre a necessidade de um posicionamento político por parte da Psicologia.
E, antes que alguém feche este texto na segunda linha, preciso esclarecer o que entendo por política. Não estou falando de partidos, candidatos ou disputas eleitorais. Estou falando da política no seu sentido mais profundo: das formas como escolhemos viver em sociedade, dos direitos que reconhecemos, das violências que legitimamos ou enfrentamos e da responsabilidade ética que assumimos diante delas.
É justamente aqui que a ideia de neutralidade começa a ruir.
Durante muito tempo aprendemos a imaginar a clínica como um espaço neutro, onde o psicólogo observa o sofrimento humano de maneira objetiva, técnica e distante. Mas essa imagem já não se sustenta diante das próprias transformações epistemológicas da Psicologia.
O CONSTRUCIONISMO SOCIAL rompe com a noção de que o conhecimento é uma fotografia objetiva da realidade. Os significados são produzidos nas relações, na linguagem e na cultura. Aquilo que chamamos de sofrimento, identidade, família, gênero ou normalidade não existe fora da história, dos discursos e das relações de poder que atravessam a vida das pessoas.
A Epistemologia Sistêmica de Segunda Ordem aprofunda ainda mais essa discussão ao abandonar definitivamente a figura do observador neutro. Heinz von Foerster nos lembra que tudo o que é dito é dito por um observador. Humberto Maturana mostra que toda descrição do mundo é produzida por alguém situado nesse próprio mundo. O observador não está fora do sistema. Ele participa dele.
Isso significa que a clínica NUNCA é um espaço de neutralidade. Ela é um espaço de produção de sentidos. Cada pergunta que fazemos. Cada silêncio que sustentamos. Cada narrativa que legitimamos. Cada sofrimento que individualizamos. Tudo isso comunica uma determinada forma de compreender o ser humano.
É por isso que a neutralidade não existe.
Quando uma psicóloga ignora que o racismo organiza experiências de sofrimento, ela já assumiu uma posição política. Quando naturaliza violências de gênero, também. Quando transforma preconceitos religiosos em técnica clínica, também. Quando reduz sofrimentos produzidos por desigualdades sociais a características individuais, também.
A omissão nunca foi neutra.
Ela apenas costuma beneficiar quem já ocupa posições de privilégio. E é exatamente por isso que o Código de Ética não fala em neutralidade. Ele fala em direitos humanos. Fala em dignidade. Fala em igualdade. Fala em responsabilidade social. Fala em enfrentamento das violências, das discriminações e das opressões. Fala, inclusive, em analisar criticamente a realidade política, econômica, social e cultural e em considerar as relações de poder presentes em nossa atuação. Ou seja: o compromisso político da Psicologia não nasce de uma ideologia partidária. Ele nasce da própria definição ética da profissão. É justamente aqui que quero fazer uma afirmação que talvez incomode algumas pessoas.
Não existe psicólogo machista. Não existe psicólogo racista. Não existe psicólogo LGBTfóbico.
Existem pessoas machistas, racistas ou LGBTfóbicas que cursaram Psicologia, receberam um diploma e possuem um número de registro profissional. Mas essas posições contradizem frontalmente os fundamentos éticos, epistemológicos e científicos da profissão. É por isso que costumo chamá-los de portadores de diploma. Porque um diploma certifica a conclusão de um curso. Não certifica compromisso ético. Não certifica rigor científico. Não certifica responsabilidade social. Muito menos transforma automaticamente alguém em Psicólogo. Ser Psicóloga não é apenas exercer uma profissão. É assumir uma determinada forma de compreender o ser humano.Uma forma incompatível com qualquer prática que produza discriminação, exclusão ou violência.
A clínica nunca foi um tribunal moral. Mas também nunca foi um bunker isolado da sociedade. O sofrimento social atravessa diariamente a porta do consultório. Ignorá-lo não torna nossa prática mais técnica. Apenas a torna menos ética. E talvez seja justamente essa a pergunta que precisamos fazer enquanto categoria:
Estamos formando Psicólogos… ou apenas multiplicando portadores de diploma?