Delírios de Segunda

Relação tipo QUARTO

E chegamos ao último episódio da nossa série sobre relacionamentos a partir dos cômodos da nossa casa. Espero que você tenha conseguido aproveitar cada um desses delírios para olhar para…

E chegamos ao último episódio da nossa série sobre relacionamentos a partir dos cômodos da nossa casa. Espero que você tenha conseguido aproveitar cada um desses delírios para olhar para os espaços do seu lar — e para as suas relações — de uma maneira completamente nova.

Fechamos essa jornada com a relação tipo quarto. Mas não é qualquer quarto: é o quarto de casal. É o espaço que revela intimidade, mas uma intimidade bem diferente daquela do banheiro. Aqui, falamos da intimidade co-construída, que nasce da possibilidade de ver o outro, deixar-se ver e, a partir desse encontro, construir algo que não existia antes: a conjugalidade.

A conjugalidade é o resultado do encontro entre duas (ou mais) narrativas individuais que conversam a tal ponto que acabam gerando uma história inteiramente nova: a narrativa da relação. E talvez seja justamente aqui que eu queira trazer novamente o amor de que tanto falo por aqui, a partir daquilo que Humberto Maturana nos ajuda a pensar: o amor como a aceitação do outro em sua legitimidade. Amar não é transformar o outro naquilo que eu gostaria que ele fosse, nem abrir mão de quem eu sou para caber na relação. É poder reconhecer o outro como alguém que existe de uma maneira própria e, ainda assim, escolher construir com ele um espaço comum.

O quarto não é só de um ou de outro. Ele é dos dois. Nele, existe uma cama que comporta duas pessoas, porque não se trata de uma vida só, mas de duas trajetórias que escolheram se cruzar. Pode ser que cada um tenha o seu lado preferido da cama, é claro. Mas, de vez em quando, na brincadeira antes de dormir, dá para trocar de lado e ficar tudo bem. Porque construir uma vida a dois não significa deixar de ter um lugar próprio. Significa ter a possibilidade de compartilhar esse lugar, negociar espaços, experimentar outras posições e descobrir que existe alguma coisa que pode ser construída entre dois mundos que continuam sendo diferentes.

A essência da conjugalidade está nessa construção conjunta. É a capacidade de traçar planos a dois, de se apoiar e de criar uma espécie de campo de força — mas um campo de força fluido. Um espaço que protege aquilo que está sendo construído sem precisar se fechar para o mundo. É nesse espaço que duas pessoas podem deixar de ser apenas duas histórias que acontecem simultaneamente e passar a produzir uma terceira história: a história do que existe entre elas. E talvez seja justamente esse o fruto mais bonito do encontro amoroso: não deixar de ser quem se é, mas fazer nascer algo que só poderia existir porque vocês dois se encontraram.

E o que isso significa na prática? Significa que, de vez em quando, esse quarto até pode receber visitas. E não estou falando necessariamente de visitas sexuais (embora possa ser isso também). Falo daquela dinâmica em que amigos entram no quarto para assistir a um filme juntos ou para ver algo novo que você comprou. Nas relações em que existe espaço para a conjugalidade, nós não nos isolamos totalmente do mundo. As outras pessoas fazem parte da nossa vida e influenciam nossa rotina, mas dentro da sua própria esfera: elas não modelam o relacionamento. Quem modela a relação são as pessoas que dormem naquele quarto. São elas que negociam os limites, fazem escolhas, constroem acordos e dão significado àquilo que estão vivendo.

A relação tipo quarto é aquela que preserva a intimidade de maneira dialogada. É uma intimidade que nasce do afeto, da comunicação franca e da vontade genuína de construir uma vida juntos. É poder olhar para o outro sem precisar reduzi-lo às próprias expectativas e, ao mesmo tempo, permitir-se ser visto em suas diferenças, vulnerabilidades, desejos e limites. Porque talvez amar seja justamente isso: não apenas dividir um espaço, mas produzir, no encontro, um espaço que passe a pertencer aos dois.

Por isso, o delírio de hoje te faz um convite: quando você olha para o seu quarto e pensa “que lugar gostoso de estar”, consegue perceber que ele só é assim porque não foi decorado apenas por você? Ele é gostoso porque foi feito em parceria com a pessoa que você escolheu não só para dividir a decoração, mas para compartilhar a vida. E talvez seja essa a grande pergunta que fica depois de passearmos por todos esses cômodos: o que existe na relação de vocês que não existiria se vocês não tivessem se encontrado?

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Sobre a autora

PATRÍCIA CALDEIRA

Há quem veja a psicologia como uma escolha de mercado. Para mim, ela sempre foi uma escolha de afeto. No final dos anos 90, quando decidi trilhar este caminho, fui movida por um chamado profundamente pessoal e afetivo.

O tempo passou, os anos de estudo se acumularam, mas aquela mesma paixão inicial permaneceu intacta — e se tornou o alicerce de tudo o que construí até aqui.

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