Quinta-feira chegou e eu tenho mais uma indicação para você sair da casinha… e da caixinha.
A indicação desta semana é a minissérie All Her Fault (Tudo Culpa Dela), lançada em 2025, criada por Megan Gallagher, baseada no romance homônimo de Andrea Mara, dirigida por Minkie Spiro e Kate Dennis, e protagonizada por Sarah Snook, Jake Lacy e Dakota Fanning. A história começa quando Marissa Irvine chega para buscar seu filho após uma brincadeira com um colega da escola e descobre que ninguém ali sabe quem ele é. O que parecia ser apenas o pior pesadelo de qualquer mãe rapidamente se transforma em uma trama de segredos familiares, controle e violência. (sinopse extraída do site “ADORO CINEMA”)
Antes de continuar, preciso fazer um combinado com você.
É impossível escrever uma resenha sem tocar em alguns acontecimentos da história. Vou tomar todo o cuidado para não entregar reviravoltas importantes, mas talvez alguns elementos da narrativa apareçam ao longo do texto. Se você ainda pretende assistir à minissérie completamente “às cegas”, talvez seja melhor voltar aqui depois.
Eu maratonei essa minissérie praticamente em um único dia (são oito episódios). E fiz uma coisa que normalmente não faço. Assisti porque todo mundo estava assistindo. Minha mãe sempre dizia: “Você não é todo mundo.” Pois é… Dessa vez eu fui. Mas, ao contrário do que encontrei na maioria das conversas sobre a série, meu olhar caminhou para um personagem que, para mim, acabou se tornando muito mais interessante do que a própria protagonista. Enquanto muita gente assistia tentando compreender Marissa, eu me peguei tentando compreender Peter Irvine.
E preciso dizer uma coisa importante (sim, mais uma vez). Esta não é uma análise da série. É a série que eu assisti. É para esse personagem que o meu olhar se dirigiu. Pode ser que você assista à mesma história e seja atravessado por alguém completamente diferente. Aliás, espero que isso aconteça. Talvez seja justamente essa a beleza das boas narrativas. Mas vamos lá:
Peter é marido. É pai. É irmão. E, antes de tudo isso, foi filho. Aliás, talvez seja impossível compreender aquele marido sem antes olhar para o filho que ele precisou ser. Ao longo da série entendemos que ele assumiu muito cedo responsabilidades sobre os irmãos, ocupando um lugar que, na Psicologia, chamamos de filho parental: aquele filho que, por diferentes circunstâncias da vida, passa a exercer funções que pertenciam aos pais. Mas foi justamente aí que meu incômodo começou.
Porque Peter parece se “esconder” — e coloco entre aspas de propósito — atrás da narrativa de que sempre precisou cuidar de todo mundo. Só que, episódio após episódio, essa narrativa vai se desfazendo. E é aqui que a minissérie deixou de ser, para mim, um suspense policial. Ela passou a falar de algo que converso com muita frequência no consultório. Existe uma diferença muito tênue entre cuidado e controle.Entre proteção e violência.Nem todo controle se apresenta como violência.Às vezes ele chega vestido de preocupação, de responsabilidade, de zelo, de “eu só quero o seu bem”.Peter vai, pouco a pouco, se traindo.Não porque muda.Mas porque já não consegue sustentar a imagem de cuidador que construiu sobre si mesmo.A necessidade de controlar os vínculos começa a aparecer de maneira quase desesperada.E, junto dela, surge uma insegurança dilacerante.Não uma insegurança qualquer, mas a insegurança de alguém que aprendeu que amar significava controlar e que perder o controle era perder a si mesmo. É muito fácil assistir a essa história e transformá-lo apenas no vilão. Ele comete violências. Comete crimes. E precisa ser responsabilizado por isso. Mas reduzir Peter ao lugar de um homem mau talvez nos impeça de fazer perguntas mais difíceis.
Hoje em dia, no senso comum, tornou-se tentador e rápido rotular comportamentos como esse sob a etiqueta do “narcisismo”. Tenho uma resistência enorme com o uso banalizado dessa terminologia, porque a internet transformou um diagnóstico e um conceito complexo em um xingamento raso para qualquer relação difícil. Mas, se olharmos para essa estrutura sem diagnósticos de prateleira, vemos alguém profundamente autocentrado, cuja biografia o organizou dessa forma.
Peter foi estruturado — enquanto filho, irmão, marido e pai — para existir apenas a partir do lugar do poder e do controle. Ele aprendeu a existir sendo indispensável. Por isso, quando ele percebe que está prestes a perder esse lugar de centralidade, ele entra em pânico existencial. Para não perder o controle, ele passa a forjar e a fabricar situações para se manter necessário. O cuidado vira o álibi perfeito para a dominação. E o mais assustador nessa dinâmica sistêmica é que ele se cega: Peter parece genuinamente incapaz de enxergar o mal e a violência que produz, porque encarar o dano significaria abrir mão do único papel que o sustenta no mundo.
O que acontece quando alguém aprende que controlar é a única forma de ser amado? O que acontece quando ocupar o lugar de marido, pai, irmão e filho significa nunca poder construir relações verdadeiramente horizontais? Como alguém vai se organizando, ao longo da vida, para acreditar que só existe quando ocupa um determinado lugar na vida do outro?
Talvez Peter seja um homem profundamente autocentrado. Talvez seja. Mas, antes disso, vejo alguém cuja forma de amar, de cuidar e de se relacionar foi organizada por uma lógica em que controle e vínculo passaram a ocupar exatamente o mesmo espaço.
É por isso que, em muitos momentos, tenho a impressão de que ele já não consegue distinguir onde termina o cuidado e começa a violência.
Não acredito que esta seja, necessariamente, a história que All Her Fault quis contar. Mas foi a história que ela contou para mim. E talvez seja justamente por isso que eu tenha escolhido escrever sobre Peter e não sobre Marissa.
Meu convite, então, não é que você concorde comigo. É que, se decidir assistir — ou até reassistir — a essa minissérie, permita-se, por alguns instantes, desviar o olhar da personagem para quem quase todos olham e observar aquele personagem que, para mim, acabou dizendo muito mais do que parecia dizer. Porque talvez seja ali que você encontre uma outra história. Ou talvez encontre uma completamente diferente da minha. E tudo bem. Afinal, uma boa narrativa nunca produz um único olhar. Ela produz muitos. E talvez a pergunta que tenha ficado comigo possa ficar com você também:
Será que toda pessoa controladora sabe que está controlando… ou algumas ainda acreditam, sinceramente, que apenas estão cuidando?