Se você estuda ou já estudou Psicologia, sabe exatamente que existe um momento na graduação que funciona quase como um rito de passagem: a cobrança (interna e externa) para escolher a “sua” abordagem teórica. Diante da imensidão de caminhos possíveis, é muito comum que o estudante se sinta pressionado a bater o martelo.
E tudo bem, em algum momento você realmente vai precisar fazer uma escolha para guiar a sua prática. Mas a pressa em se rotular pode delimitar o seu olhar. Ela te impede de aproveitar a Psicologia, enquanto ciência e profissão, em toda a sua riqueza e complexidade.
Eu costumo dizer aos meus alunos que, enquanto estiverem na faculdade, eles precisam “periguetar” (assim mesmo, entre aspas e com todo o carinho e molho desse termo que a minha Bahia entende tão bem!). Flerte com a Psicanálise, namore a Análise do Comportamento, dê uma piscadinha para a Gestalt e experimente a Sistêmica. Permita-se compreender o que cada uma propõe antes de se comprometer.
Para entender as abordagens, gosto de usar a metáfora das línguas. Imagine pessoas de diferentes nacionalidades — uma falando português, outra alemão, mandarim ou russo — sentadas lado a lado olhando para o mesmo pôr do sol. A forma como cada uma vai descrever aquela cena será completamente diferente. A sonoridade, a entonação, a estrutura das frases… tudo muda. No entanto, o alemão não olha para o russo e diz que ele está errado. Por que faria isso? Cada um descreve o mundo a partir de quem é e da língua que aprendeu para dar sentido às coisas.
A escolha da abordagem é exatamente isso: é encontrar a linguagem teórica que melhor se alinha à sua maneira de entender o ser humano e o mundo.
E é aqui que entra o nosso compromisso ético e a soberania da nossa ciência. O nosso Código de Ética deixa muito claro que todo trabalho psicológico deve ter embasamento científico. Se a Psicologia, como ciência mãe, abarca e valida todas essas diferentes abordagens, é porque cada uma delas constitui conhecimento científico legítimo.
Por isso, não cabe a nenhum profissional desqualificar a abordagem de um colega para tentar enaltecer a sua própria. O nosso Código de Ética veda expressamente práticas que impliquem em desrespeito, desconsideração ou preconceito com os pares.É claro que podemos — e devemos — criticar a postura ou a prática de um profissional que esteja agindo de forma antiética. Mas precisamos ter a maturidade clínica de separar o profissional que está por trás do manejo da teoria em si.
Quando colocamos em xeque a cientificidade de uma abordagem inteira aceita pelo nosso Conselho, estamos, de forma automática, enfraquecendo e fragilizando a soberania da própria Psicologia enquanto ciência. Nosso compromisso fundamental é dignificar e enaltecer o saber psicológico. Essa disputa de egos e de nichos de mercado faz exatamente o oposto: invalida e rebaixa a nossa profissão.
Existe uma beleza extraordinária nessa diversidade de abordagens. É justamente ela que traz a sensibilidade e a complexidade necessárias para dar conta do humano. Por termos várias possibilidades de olhar para o sujeito, suas relações, dores, sentimentos e emoções, nós também multiplicamos e triplicamos as nossas ferramentas de cuidado. Não há uma linha “melhor”; há formas diferentes de alcançar o outro.
Então, se você é estudante ou até mesmo se já se formou e está tomado por dúvidas se escolheu o caminho certo, faça uma pausa. Pare de olhar apenas para os manuais e olhe um pouquinho para dentro. Olhe para a sua própria história. É a maneira como você se percebe e percebe o mundo que vai dar o tom de qual é a sua abordagem. A teoria que vai te fazer sentido é aquela que conversa com a sua essência.
Independentemente da “língua” que você escolheu falar no consultório, todos nós respondemos ao mesmo ecossistema ético. Que a gente possa defender a nossa prática com paixão, mas sem nunca perder o respeito pelo dialeto do outro. Afinal, no final do dia, estamos todos tentando descrever, acolher e cuidar do mesmo pôr do sol.
Com amor,
Psi.
Referencias do código de ética citadas:
PRINCIPIOS FUNDAMENTAIS
V. O psicólogo contribuirá para promover a universalização do acesso da população às informações, ao conhecimento da ciência psicológica, aos serviços e aos padrões éticos da profissão.
Art. 20 – O psicólogo, ao promover publicamente seus serviços, por quaisquer meios, individual ou coletivamente:
f) Não fará auto-promoção em detrimento de outros profissionais;
Respostas de 2
A Psicologia nos leva a um mundo tão denso que, às vezes, é assustador. Cada disciplina forma um movimento interno, de portas que vão se abrindo devagarinho. Compreender cada ranger de porta ecoa dentro de nós histórias e dores que estavam ali, bem adormecidas. Conhecer cada uma foi como entrar devagarinho em uma sala e perceber que ela está cheia de espelhos, cada linha teórica olhando para o meu EU me fez sentar e me sentir bem pequenina, observando a imensidão que cada imagem provoca em mim e no outro. Descartar ou anular uma delas não se pode, porque cada uma compõe a história e o movimento da Psicologia, e de como a singularidade do sujeito se modificou ao longo da história da humanidade. Neste momento, consegui entrar na sala, pé ante pé , mas ainda sou bem pequena, sentada entre espelhos, esgueirando meu olhar, me assustando às vezes, me apropriando em outros. Obrigada por estar lá.
Com afeto Patricia Gomes .
Amei a analogia da sala de espelhos e vou passar a usar nas aulas(dando crédito pra vc, é claro rsrsrs). A ideia é justamente essa, NÃO DESCARTAR!Fico feliz que a reflexão tenha chegado até vc dessa maneira tão sensivel. Obrigada por compartilhar!